Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Até fazíamos vinho...

por António Tavares, em 31.10.17

Até fazíamos vinho…

Os primeiros anos, depois de ter a casa construída, foram de muito trabalho. Mas vínhamos de lá cansados e contentes.

Pintar gradeamentos, construir muros e passeios, construir o churrasco e o forno e o telheiro, construir a piscina, plantar árvores e relva e as sebes, apanhar as ervas do meio da relva, cortar a relva … Plantámos duas fiadas de videiras que faziam uma latada, no caminho para a garagem. Logo nos primeiros anos deram tantas uvas que me propus fazer vinho. E fiz. Comprámos um barril na feira da ladra e enchemo-lo. E bebeu-se

No ano seguinte arranjámos a garagem. Chão de mosaicos, construímos a adega e a arrecadação.

Compramos 4 barris porque a ideia na altura era percorrer as adegas da zona para escolher os melhores vinhos e engarrafá-los. A garrafeira leva cerca de 500 garrafas. O mais que lá teve foram 15 ou 20 garrafas. Depois bebi-as todas…

O pai da Fernanda sugeriu que fossemos comprar uvas para esmagar e encher os barris. E enchemos. Mas fazer vinho requer muitos cuidados e atenção. Apodreceu e foi todo para o lixo.

Como a latada de videiras fazia muito lixo cortei-as todas. Plantei depois apenas meia dúzia de uvas de mesa e não as deixo crescer muito.

Quando foi inaugurado o Continente na Amadora passámos a ter mais um motivo de recreação: fazer as compras no primeiro dia de férias. Como as férias duravam um mês inteiro tínhamos que encher 2 carrinhos. Comprávamos um presunto inteiro. Por vezes nem cabia tudo no porta-bagagens do Fiat. Na viagem para a Ericeira almoçávamos no Curral dos Caprinos. Era um dia de festa…

A nossa ideia, ao planear a Casa da Praia, era construir uma casa baixa e larga. Para esse efeito teve que se aproveitar a largura máxima possível, que o terreno permitisse. Depois teve ser esticada para trás.

Cedo a Fernanda começou a dizer que não gostava por ser baixa demais. Que parecia uma barraca.

Nas tardes solarengas juntávamo-nos com outros vizinhos no restaurante o Pinhal (hoje desactivado). O dr Miguel, o António e a D Fernanda, o Manel, a Gabriela… conversa puxa conversa. Eramos todos visitas das casas uns dos outros. Quando vinham a nossa casa perguntava a todos:

- Acha a nossa casa feia? A minha mulher acha que é muito baixa e que as outras são mais bonitas…

Eu então sempre achei que a nossa era a mais bonita de todas. Por uma razão simples: era nossa!

Certo dia fomos com os meus sogros levar a chave à mulher-a-dias, a D Isaura (que ainda hoje nos limpa a casa. À porta dela diz a minha sogra:

- Esta é que é uma casa bonita. É alta. Tem uma varada grande no primeiro andar.

Não tardou que a Fernanda fizesse a cabeça ao pai para financiar a construção do primeiro andar. Mais uma sala com bar, lareira e mesa de snooker, uma varanda, casa de banho e mais 3 quartos. E mais 10 mil contos.

Na altura havia por ali muita rapaziada nova. Brincavam todos uns com os outros. Todos gostavam de vir para nossa casa porque tinha piscina. Era a única. Acabavam de almoçar e entravam com a toalha às costas. Parecia uma piscina pública.

Começámos a aborrecer-nos com isso e passamos a fechar o portão à chave. Passaram a entrar apenas quando nós queríamos.

À noite os rapazes gostavam de brincar na rua. Nós não gostávamos muito que o Bruno andasse na rua à noite. Não estávamos descansados em casa. Então mandávamo-los todos para a nossa garagem, que era grande. Mesmo assim, para podermos descansar, tínhamos que correr com eles já pela noite fora, tal era o barulho que lá faziam.

Um dos lotes em frente à nossa casa ainda estava em mato. Para os miúdos brincarem abri um caminho pelo meio do mato e lá mais acima construi-lhes uma cabana com restos de madeiras das muitas obras da zona. Fiz um telhado com canas e mato. Era um local de brincadeiras.

Um dia, tinha o Tiago poucos anos, estava eu preparando o churrasco e a Fernanda os acompanhamentos do almoço. Perguntou-me:

- Sabes do Tiago?

- Não. Mas está aqui o triciclo. Não deve estar longe.

Procurámos. Chamámos. E nada. Corremos a rua toda a chamar por ele e ele não respondia. Estava escondido na cabana do mato.

- Não ouvias a mãe a chamar?

- Ouvia, mas não quis responder…

Casa da Praia 4.jpg

A Casa da Praia vista do lado de trás. O Torpes sempre a espreitar-me!

Casa da Praia 5.jpg

A Casa da Praia vista da frente.

Casa da Praia 6.jpg

Ao fundo o mar (à direita) e a serra de Sintra (à esquerda).

Casa da Praia 7.jpg

Pormenor do meu jardim.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:16

A casa de Queluz a Nônô e os óculos de cascas de laranja

por António Tavares, em 26.04.17

A casa de Queluz a Nônô e os óculos de cascas de laranja

Mantive-me na pensão da Rua de Stª Marta até à ida para a tropa. Entretanto o Manel também tinha vindo para Lisboa tirar um curso de Offset. Como tínhamos familiares no Ministério da Educação ele conseguiu depois lá um lugar na reprografia. A Lena e a Lúcia também tinham vindo para Lisboa para empregadas internas na casa de uma senhora da sociedade, irmã do Sr Visconde. Tinha sido o primo Manel de Moura que dera um toque ao Sr Visconde. Estiveram lá pouco tempo. A Lúcia foi para uma casa de freiras e a Lena acabou por ir trabalhar também para o Ministério da Educação e alugou uma parte de casa no Bairro Alto.

Estava na tropa em Mafra e vinha a Lisboa aos fins-de-semana. Costumava ficar com ela.

Nessa altura tinha um amigo da Roda, mais velho, que também fora seminarista, o Tonito. Ele tinha uma amiga que conhecera dos seus tempos de tropa na Amadora. Essa amiga tinha mais 2 irmãs. Eram oriundas de Elvas e moravam com os pais na Amadora. Parece que ainda eram conhecidas daquele que cantava “Ó Elvas, Ó Elvas, Badajoz à vista...". Essas raparigas eram interessantes porque a mãe era chinesa de Macau. O pai delas fora lá sargento do exército. E aquela mistura de português e chinês dei-lhes um traço característico.

Sempre que vinha a Lisboa, eu o Tonito tínhamos companhia para o fim-de-semana. Ele com a mais velha e eu com a do meio. Íamos à praia a Carcavelos e ao Estoril, percorríamos os cafés da Reboleira e Amadora, íamos dançar e beber uns copos para uma boite que abria as portas aos domingos à tarde para a malta mais nova e que ficava na Rua Filipa de Vilhena. O Tonito chegou a namorar com a mais velha. Acabou por casar com uma rapariga lá da terra. Eu tentei alguma aproximação à irmã do meio. Foi o meu segundo amor platónico. Ainda hei-de falar do primeiro. Mas sempre que lhe puxava pela conversa ela dizia que tinha um namorado que era piloto da Força Aérea. Nunca o vi. O certo é que passávamos muitos fins-de-semana juntos. Mas fiquei-me apenas pelo amor platónico pela minha chinesinha Nônô…

Quando fui para Moçambique levei o seu contacto. Ainda escrevemos algumas cartas. Nunca existiu empatia e acabou.

Quando regressei da guerra e fui estudar para o ISE estava ela a acabar o curso. Apenas nos cumprimentávamos. Depois encontrava-a regularmente na Rua da Prata. Ela vinha de comboio da Amadora e apanhava o eléctrico para o Arco do Cego. Trabalhava na Casa da Moeda.

Como eu e alguns dos meus irmãos já estávamos em Lisboa foi por sugestão do Tonito que começamos a procurar casa para alugar para todos. Um dia fui com ele a Queluz ver uma casa disponível. Levei lá a Lena e ficamos com ela. Tinha 5 assoalhadas. 2 quartos para os rapazes e 2 para as raparigas.

Atrás de nós vieram os outros todos. Até que ficaram apenas os pais em Cardigos. Eu estava na tropa. E eles lá foram arranjando emprego, a maioria deles no Ministério da Educação. O certo é que a vinda para Lisboa abriu os olhos a eles todos. A maioria acabou por estudar à noite, acabaram por tirar cursos superiores e arranjar empregos melhores.

O Mário também deu as suas voltas na vida. Foi tirar a escola primária a Canha, perto de Setúbal, a casa de familiares da parte da minha mãe. Quando vinha a casa nas férias do Natal trazia de lá laranjas. Eram as maiores laranjas que já vira. Enormes. Tão grandes eram que a minha mãe descascava-as e dava a cada um apenas um ou 2 gomos. Mesmo assim havia guerra pelas cascas. Para comer a parte interior da casca. Estas laranjas serviam para fazer óculos: eu cortava 2 lascas da casca em lados opostos. Depois cortava uma tira da casca entre as duas lascas sem a separar. Por fim tinha que meter a faca por dentro da casca e separar toda a casca do miolo. Enfiava a tira debaixo do chapéu e afastava os dois buracos para os lados, ficando um em cada olho. Era assim que eu brincava.

Depois o Mário esteve no seminário de Poiares. Tentou e não se deu bem. Acabou por ir tirar o liceu a Castelo Branco. Usava a barba grande e os cabelos enormes. Cada vez que vinha ao Casalinho havia sempre discussão com o pai. Quase chegavam por vezes a vias de facto. Ele não queria aquelas guedelhas. Ele veio depois para Lisboa tirar Medicina. Teve ligações esquerdistas. Constou-me, depois de eu vir de Moçambique, que uns dias antes do 25 de Abril alguém ligado à PIDE batera à porta da casa de Queluz a perguntar por ele.

Depois do 25 de Abril as suas ligações esquerdistas levaram-no a participar em actividades de apoio local em locais mais desprotegidos. Num bairro de barracas da Amadora participou na construção de um espaço para apoio social e escolar.

A casa de Queluz serviu para todos nós. Até para receber o pai depois de adoecer e a Mãe quando ficou viúva. Foi lá que faleceu o pai e mais tarde a mãe.

Foi para lá que fui morar quando vim de Moçambique. Foi de lá que saí para ir casar. Lá faleceu o João, vítima de um ataque epiléptico nocturno. De lá saíram os meus irmãos todos menos o Abílio e o Alberto. Quando o senhorio vendeu o andar, o Abílio comprou a parte dele e a parte do Alberto. O Alberto foi depois comprar uma para ele para os lados de Sintra.

A dada altura a minha mãe chamou os filhos todos. O Manel já tinha falecido. Veio a viúva. Havia feito lotes dos terrenos todos como ela entendeu. Escreveu os nomes em papelinhos e enrolou-os. A começar pelos mais velhos cada um tirou um papel. Para mim ficou o Covão do Rocinho e parte do Cabril, entre o estradão e o lado direito da barragem. A casa ficava para todos. Assim evitou a guerra de partilhas e faleceu em paz.

Barragem preta.jpg

 A barragem do Casalinho com água preta, fruto dos incêndios de 2003. A maior parte dela construida em terrenos dos meus pais.

Os terrenos de lá ficaram para um dos meus irmãos. Uma tira que restou do lado de cá ficou para mim.

Covão do rossinho ardido.jpg

O Covão do Rocinho: a horta e os terrenos que me calharam, ardidos em 2003.

À esquerda a Fernanda, a mãe dela (D Palmira) e os meus filhos Bruno e Tiago.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:11


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog


Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D