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Até fazíamos vinho...

por António Tavares, em 31.10.17

Até fazíamos vinho…

Os primeiros anos, depois de ter a casa construída, foram de muito trabalho. Mas vínhamos de lá cansados e contentes.

Pintar gradeamentos, construir muros e passeios, construir o churrasco e o forno e o telheiro, construir a piscina, plantar árvores e relva e as sebes, apanhar as ervas do meio da relva, cortar a relva … Plantámos duas fiadas de videiras que faziam uma latada, no caminho para a garagem. Logo nos primeiros anos deram tantas uvas que me propus fazer vinho. E fiz. Comprámos um barril na feira da ladra e enchemo-lo. E bebeu-se

No ano seguinte arranjámos a garagem. Chão de mosaicos, construímos a adega e a arrecadação.

Compramos 4 barris porque a ideia na altura era percorrer as adegas da zona para escolher os melhores vinhos e engarrafá-los. A garrafeira leva cerca de 500 garrafas. O mais que lá teve foram 15 ou 20 garrafas. Depois bebi-as todas…

O pai da Fernanda sugeriu que fossemos comprar uvas para esmagar e encher os barris. E enchemos. Mas fazer vinho requer muitos cuidados e atenção. Apodreceu e foi todo para o lixo.

Como a latada de videiras fazia muito lixo cortei-as todas. Plantei depois apenas meia dúzia de uvas de mesa e não as deixo crescer muito.

Quando foi inaugurado o Continente na Amadora passámos a ter mais um motivo de recreação: fazer as compras no primeiro dia de férias. Como as férias duravam um mês inteiro tínhamos que encher 2 carrinhos. Comprávamos um presunto inteiro. Por vezes nem cabia tudo no porta-bagagens do Fiat. Na viagem para a Ericeira almoçávamos no Curral dos Caprinos. Era um dia de festa…

A nossa ideia, ao planear a Casa da Praia, era construir uma casa baixa e larga. Para esse efeito teve que se aproveitar a largura máxima possível, que o terreno permitisse. Depois teve ser esticada para trás.

Cedo a Fernanda começou a dizer que não gostava por ser baixa demais. Que parecia uma barraca.

Nas tardes solarengas juntávamo-nos com outros vizinhos no restaurante o Pinhal (hoje desactivado). O dr Miguel, o António e a D Fernanda, o Manel, a Gabriela… conversa puxa conversa. Eramos todos visitas das casas uns dos outros. Quando vinham a nossa casa perguntava a todos:

- Acha a nossa casa feia? A minha mulher acha que é muito baixa e que as outras são mais bonitas…

Eu então sempre achei que a nossa era a mais bonita de todas. Por uma razão simples: era nossa!

Certo dia fomos com os meus sogros levar a chave à mulher-a-dias, a D Isaura (que ainda hoje nos limpa a casa. À porta dela diz a minha sogra:

- Esta é que é uma casa bonita. É alta. Tem uma varada grande no primeiro andar.

Não tardou que a Fernanda fizesse a cabeça ao pai para financiar a construção do primeiro andar. Mais uma sala com bar, lareira e mesa de snooker, uma varanda, casa de banho e mais 3 quartos. E mais 10 mil contos.

Na altura havia por ali muita rapaziada nova. Brincavam todos uns com os outros. Todos gostavam de vir para nossa casa porque tinha piscina. Era a única. Acabavam de almoçar e entravam com a toalha às costas. Parecia uma piscina pública.

Começámos a aborrecer-nos com isso e passamos a fechar o portão à chave. Passaram a entrar apenas quando nós queríamos.

À noite os rapazes gostavam de brincar na rua. Nós não gostávamos muito que o Bruno andasse na rua à noite. Não estávamos descansados em casa. Então mandávamo-los todos para a nossa garagem, que era grande. Mesmo assim, para podermos descansar, tínhamos que correr com eles já pela noite fora, tal era o barulho que lá faziam.

Um dos lotes em frente à nossa casa ainda estava em mato. Para os miúdos brincarem abri um caminho pelo meio do mato e lá mais acima construi-lhes uma cabana com restos de madeiras das muitas obras da zona. Fiz um telhado com canas e mato. Era um local de brincadeiras.

Um dia, tinha o Tiago poucos anos, estava eu preparando o churrasco e a Fernanda os acompanhamentos do almoço. Perguntou-me:

- Sabes do Tiago?

- Não. Mas está aqui o triciclo. Não deve estar longe.

Procurámos. Chamámos. E nada. Corremos a rua toda a chamar por ele e ele não respondia. Estava escondido na cabana do mato.

- Não ouvias a mãe a chamar?

- Ouvia, mas não quis responder…

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A Casa da Praia vista do lado de trás. O Torpes sempre a espreitar-me!

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A Casa da Praia vista da frente.

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Ao fundo o mar (à direita) e a serra de Sintra (à esquerda).

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Pormenor do meu jardim.

 

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publicado às 09:16

O ninho das formigas e o tanque para lavar o cu

por António Tavares, em 09.10.17

O ninho das formigas e o tanque para lavar o cu

Arranjei todo o jardim e a horta. Deixámos em terra a zona para fazer a piscina. Era onde o Bruno brincava com os seus carrinhos miniatura. Sempre gostou muito de carros. Fazia uma estrada. Uma pista. Um parque de estacionamento. Depois levava-os, um a um, a percorrer aqueles caminhos todos. No fim ficava todo sujo. Não fazia mal.

O padrinho do Bruno construiu-lhe uma garagem em contraplacado. Portão de entrada, com dois pisos e rampa de acesso. Era um delírio. Deu para arrumar os carros todos.

- Oh pai… os carros não enchem a garagem. Tens que comprar mais.

E comprámos.

A dada altura decidimos construir a piscina. Pedimos orçamentos e pediam-nos 2 e 3 mil contos. Decidimos fazê-la nós próprios.

Contratamos o sr Festas da Achada e ele arranjou mais uns 2 ou três amigos. Nós íamos na sexta-feira e no sábado, mal o sol raiava lá começávamos nós a ouvir o carro de mão a chiar, estrada fora. Traziam enxadas e pás para escavar e o carro de mão para acarretar a terra. Foi tudo escavado à mão e a terra atirada para o caminho de trás. Felizmente como a terra era boa houve logo quem a quisesse e a levasse em tractores. Evitou-se termos de nos desfazer dela.

O ti Festas e os amigos gostavam de ter uma pinga para ir bebendo ao longo do dia. Comprávamos-lhes um garrafão de 5 litros numa adega do Sobreiro. Dava para o dia todo. Iam intercalando com água. Certa vez trouxemos um garrafão de um vinho melhor.

- Não pode trazer mais deste vinho. Com este nós vamo-nos abaixo mais depressa…

Aberto o buraco arranjámos um pedreiro que fazer as infra-estruturas em cimento e os muros e as escadas de acesso. Comprámos as máquinas em Lisboa. Contratámos com o canalizador Carlos Batalha da Achada para montar as máquinas. Comprámos em Sintra as pedras para o rebordo exterior e para o deck. Montar as pedras exteriores foi trabalho meu.

Faltava arranjar quem revestisse a piscina com os azulejos comprados por nós. Indicaram-nos o Maximino de Caeiros. Que era um rapaz jeitoso. Que só trabalhava em azulejos. Pedimos-lhe orçamento.

- Não posso dizer ao certo. Depende do trabalho que der. Mas deve ficar à volta de 27 contos.

Mandamos fazer. Quando lá chegamos andava a trabalhar com ele o padrinho, o tio, mais um amigo … diz a Fernanda:

- Não me digas que depois temos que pagar a estes todos…

Bem dito, bem feito. Ainda antes de acabar (faltava betumar os azulejos) pediu que lhe pagássemos.

- Sabe… também tenho que pagar a quem me veio ajudar!

Começou por pedir mais de 40 contos. E o trabalho por acabar. Demos-lhes 30 contos e dissemos que se fosse embora. Que não aparecesse mais. Acabei eu por betumar os azulejos, conforme fui capaz (mal). Daí em diante vinha de mota pôr-se à nossa porta à espera que lhe pagássemos.

Sem o saber o meu sogro, com medo que nos acontecesse algo de mal, foi a casa dele e pagou-lhe o que ele queria. Viemos a saber mais tarde que ele era exactamente um calão. Vivia de biscates e não fazia nada de jeito. Esteve emigrado e veio-se embora. Esteve como caseiro numa quinta em São Lourenço e correram com ele.

Trabalhamos muito naquele pedaço de terra que é nosso. Daí lhe ter tanto amor. Tenho lá enterradas muitas gotas de suor, algumas gotas de sangue a algumas lágrimas. Transportava as pedras e o cimento dentro de dois baldes presos com cordas a um pau que colocava nos ombros. Cheguei a tê-los feridos. Vínhamos de lá cansados, mas felizes.

O Sr Sequeira (vizinho de frente) dizia muitas vezes:

- Olhe que isto é um campo de férias! Não é um campo de concentração.

A Fernanda é bora rapariga. Sempre gostou da Casa da Praia. Mas sempre gostou mais de comprar tapetes de arraiolos e bibelots. Até nas casas de banho e nas paredes instalou arraiolos. Já sobre o jardim e a horta e a piscina tinha outra opinião. Chamava-lhes o ninho das formigas. E a piscina o tanque de lavar o cu. Nunca consegui que lá metesse um pé.

Mas eu até achava piada aos tapetes de arraiolos. Colaborava mesmo no desenho de alguns. Fazia-os em folhas de Excel. Temos lá na parede uma reprodução de um que faz parte de um museu (não me lembro qual) e que é tido como um dos mais antigos, para lá da idade média. Foi descoberto numas ruinas quaisquer, em muito mau estado. Foi recuperado e nós vimos a sua fotografia num jornal qualquer, num tamanho que não deveria ter mais de 5 x 5 cm.

Ampliei-o várias vezes através de fotocópias. Desenhei-lhe em cima uma malha de quadrados e depois compu-lo, ponto por ponto, numa folha Excel. Até as cores conseguimos manter.

Disse muitas vezes à Fernanda:

- Estás a construir um museu. Não uma casa de campo…

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É esta a reprodução do tapete de Arraiolos medieval. Foi encontrado em muito mau estado e foi restaurado. É tido como o mais antigo Arraiolos conhecido. Vimos a sua reprodução numa revista numa foto de 5x5 cm. Redesenhei-o à mão numa folha excel. Fizemos a sua reprodução.

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A adega dos monges. Tapete de Arraiolos pendurado na parede.

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 A caça ao javali. Outro tapete de Arraiolos na parede.

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publicado às 12:02

Ardeu-nos a cozinha - tinha a casa um ano

por António Tavares, em 09.10.17

Ardeu-nos a cozinha – tinha a casa um ano

Construímos a Casa da Praia nos anos 1980 e 1981. Todos os fins-de-semana íamos ver o andamento das obras. Tinha o Bruno 3 anos. Levávamos um coelho guisado e um fogareiro. Acampávamos num pinhal qualquer, fazíamos arroz de coelho e era para nós uma festa. A maior parte das vezes estragada porque as obras não avançavam, ou se avançavam lá vinha mais uma arrelia por causa de uma coisa mal feita ou outra exigência do construtor. Íamos à sua procura. Dizia que não podia ter só uma obra em andamento. Que tinha que ir fazendo várias ao mesmo tempo.

Depois de muitas zangas lá inauguramos a casa no verão de 1982. Não tínhamos mobílias. Só colchões para dormir no chão.

Passamos a ir todas as sextas-feiras à noite. Tínhamos 2 dias inteiros para trabalhar. Sempre que havia um feriado era mais um fim-de-semana prolongado. O pai da Fernanda foi comprando os gradeamentos. Eu ia-os pintando. Uma camada de primários e depois duas de tinta. Eu ia também fazendo os muros de suporte das terras e as escadas. E fiz os passeios todos em pedra que fomos comprar a Sintra.

Passávamos pela Venda do Pinheiro e levávamos o porta-bagagens do Fiat cheio de tijolos burro. Para eu ir fazendo o churrasco e o forno. Depois fiz o telheiro do churrasco.

Para fazer os passeios à volta da casa escavei primeiro uma vala funda. Revesti o fundo com brita e depois com cimento. Barrei com alcatrão toda a parede que ia ficar tapada bem como o fundo da vala. Coloquei um tubo de plástico no fundo da vala e furei-o todo. Tapei com mais brita e depois com terra por cima. Só depois construi o passeio.

Tinha verificado que em muitas casas da zona, os passeios abatiam, pouco tempo depois de serem feitos. Os nossos ainda lá estão, tal e qual como foram feitos, há quase 45 anos.

Enquanto íamos construindo a casa passeávamos pela zona a ver outras moradias em construção para tirar ideias. Foi numa delas que vimos os barrotes de ulmeiro a revestir o tecto da sala. Era a casa do secretário do presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Até candeeiros e bancos de jardim tinha levado para lá. Tinha feito a lareira com pedras de cantaria retiradas de uma demolição em Lisboa.

Mas também tivemos pessoas e virem ver a nossa obra e tirarem ideias para as suas. Como um comerciante do Sobreiro que nos pediu o contacto para comprar uma cozinha igual.

Mandamos vir de Sintra um camião de terra de jardim que andei depois a transportar em carro-de-mão e a espalhar por todo o terreno, antes de plantar a relva.

Tinha algum jeito (que aprendera com o meu pai) para trabalhos de pedreiro, mas não era capaz de rebocar paredes. Depois de terminar os muros e o churrasco teve que o pai da Fernanda levar lá um pedreiro de Lisboa (num fim-de-semana alargado) para os rebocar todos. Nós pintámo-los depois.

Arranjámos um calceteiro para fazer o empedrado da rampa da garagem.

No verão de 1985 estávamos a passar o fim-de-semana na Casa da Praia com os pais da Fernanda quando o nosso vizinho da frente fez entrar no seu quintal uma máquina de fazer furos para obter água. Ao fim de algumas horas jorrava água por todo o lado. Diz o meu sogro:

- Também podíamos fazer um furo aqui.

Fomos falar com o homem.

- Amanhã é feriado. Se quiseram trago para aqui a máquina e faço-o em pouco tempo.

No dia seguinte tivemos que vir a Lisboa buscar o dinheiro para lhes pagar, enquanto ele furava. No fim do dia jorrava água por todo o lado. 50 metros de furo pelo chão abaixo. Ainda hoje lá está, deitando água eficientemente.

Um ano depois de inaugurar a casa, ainda o churrasco não estava terminado, recebemos um sobrinho do meu sogro para almoçar connosco. O Vicente da Roussada trouxe frangos e eu assei-os entre dois tijolos à porta da garagem. Estávamos a comê-los na garagem quando ouvimos o quadro eléctrico a rebentar. Fomos ver. Toda a cozinha estava tomada pelas chamas. Tínhamos deixado ao lume a frigideira a fritar a última dose de batatas.

Peguei na mangueira e pela varanda comecei a apagar o fogo. Quando chegaram os bombeiros já quase o fogo estava dominado. Fizeram apenas o rescaldo. Felizmente tínhamos seguro que pagou tudo.

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publicado às 10:12

Não quero ser vegeral

por António Tavares, em 11.09.17

Não quero ser vegetal

Depois de casado sempre vivi em comunhão com os meus sogros. Sem eles não teria nada do que que hoje tenho. Habituado a um certo nível de vida, cedo percebi que não o poderia manter sem a ajuda deles.

Quando o Bruno era pequeno fizemos imensos passeios no Fiat ou no Ford Cortina. Íamos com frequência a uma quinta nas Cardosas (Arruda dos Vinhos) cujo caseiro era cliente deles. A quinta era muito antiga, tinha pertencido ao Intendente Pina Manique. Ninguém lá morava. Tinha capela e tudo. O caseiro era o guardião. Varejava a fruta para alimentar as cabras. Trazíamos sempre o porta-bagagens cheio de peros e maçãs. Porque diziam que os cornos dão sorte, ele cortou os 2 cornos a um borrego e deu-nos. Ainda hoje nos acompanham.

Mesmo quando morávamos em Odivelas, passávamos muito tempo juntos. No natal fazíamos um presépio grande com fonte, cascata de água e moinho. Mesmo em cima de alcatifa. O Bruno não ligava muito, nem às prendes. Depois de as desembrulhar todas ia buscar 2 tampas de tachos da cozinha e aparecia ao pé nós a bater com elas.

Naquele tempo era usual ter as casas alcatifadas e as paredes revestidas a papel. E papel de veludo. Bom para acumular pó. O Bruno sofria de bronquite. Tomou vacinas semanais importadas de Barcelona até aos 13 anos. Quando era pequeno e já dormia no quarto dele, levantei-me muitas noites mal o ouvia começar a tossir, para pegar nele. Chegados ao átrio era certo e sabido que ia vomitar tudo em cima da alcatifa. Lavei muitas vezes a alcatifa à 1 ou 2 da manhã. A solução acabou por ser eu dormir sentado com ele ao colo para ele encostar a cabeça no meu ombro. E depois eu ia trabalhar e depois eu ia para a faculdade e depois eu ia fazer reuniões de trabalho com os colegas da faculdade e depois a Fernanda não queria que eu fosse para casa deles (preferia fazer o almoço em nossa casa para todos). Eles também se chateavam de vir sempre para nossa casa…

A Fernanda vinha com o Bruno na carreira à quarta-feira para almoçarmos todos em Lisboa em casa dos avós. Depois passamos mesmo a dormir lá em casa. Quando terminámos a Casa da Praia começamos a quase não ir a Odivelas. Estávamos de semana em casa dos pais da Fernanda e ao fim de semana íamos para a Ericeira.

Entretanto nasceu o Tiago. Não tínhamos condições de morar mais em casa os meus sogros. O meu sogro decidiu vender a casa de Odivelas e comprou uma (velhinha) na Rua da Graça. Ainda hoje o Tiago lá vive com a Diana.

Para poder manter o nível de vida que levávamos fui sempre dizendo à Fernanda que me queria reformar cedo. Podíamos dar continuidade ao negócio dos avós e ficávamos com algum tempo mais para aproveitar a Casa da Paria.

Eles vendiam fardamentos e artigos militares em feiras. Por fim apenas na feira da Ladra. A partir de certa altura a saúde deles já não permitia que fizessem a feira, sozinhos. Eu ia (já lá vão muitos anos quando isto começou) às terças e aos sábados, às cinco horas da manhã, ajudar a montar a barraca e depois ao fim do dia ia ajudar a levantar. Depois a Fernanda passou a ir ajudar a fazer a venda aos sábados. Depois passamos nós a ir para a feira apenas os dois.

Ficámos com o armazém que o meu sogro tinha no Beco dos Lóios, que eu tentei “transformar” em loja e onde eu estava nos dias em que não havia Feira da Ladra. Mas como o sítio é muito escondido, cedo percebi que não servia para o efeito. Decidimos então abrir a Loja Promagala na Rua da Verónica. E quando a senhoria do armazém quis aumentar muito a renda, entregámo-lo.

Acompanhei a vida dos meus sogros muito de perto. Foram muito mais que pais, para mim. O meu sogro tinha uma religiosidade muito própria. Não frequentava a igreja mas acreditava que algo nos governava. Quando a Fernanda partiu a perna ofereceu o peso dela em trigo à N. Srª do Socorro (Enxara dos Cavaleiros, perto da terra dele: Milharado). Ainda lá fui com ele entregar o saco de trigo.

Acreditava no além e não queria, por nada ir para debaixo da terra. Construiu no cemitério do Milharado um jazigo para a família. Oito assoalhadas. Queria garantir lugar para todos até aos netos e suas companheiras. Está lá ele e sua esposa.

Depois de ele falecer a D Palmira veio viver para nossa casa. Como era relativamente saudável e trabalhadora, ainda nos foi muito útil antes da doença a deitar abaixo. Levantava-se noite. Um dia partiu a cabeça ao cair da cama. Fomos obrigados a dormir (eu e a Fernanda) aos bocados num cadeirão ao lado dela, para a segurar. Teve uma embolia pulmonar. Esteve internada na CUF quase 15 dias entre a vida e a morte. Durou mais uns 10 anos.

Eu ia para a loja. Aos sábados e terças-feiras ia para a Feira da Ladra. Por fim já não conseguimos ninguém que ficasse em casa com ela. Eu tinha que estar em casa de manhã, ao meio dia e à noite, para a levantar, sentar na cadeira e ajudar a Fernanda na higiene e na alimentação. Nos últimos cinco anos esteve como um vegetal. Sem falar e sem qualquer reacção.

Entretanto, fui um dia buscar o Torpes a casa dele, como de costume, para passar a tarde connosco na loja. Deu-me um esticão, caí pelas escadas abaixo, parti um pulso e úmero em 3 sítios. Fui operado na CUF. Puseram-me ferros pelo braço abaixo e 8 parafusos. Fiquei com os movimentos do braço reduzidos. Estive mais de 3 meses sem ir para a Feira da Ladra. O fiscal insistia que ou eu ia ou desistia. Os outros feirantes reclamavam.

Fiz contas e desisti.

A Fernanda bem ralhou comigo. Que podia continuar a fazer a feira. Mas como, se eu tinha que ir a casa ao almoço para levantar a avó e ajudar? Que na feira é que se ganhava dinheiro!

Passados 2 ou 3 meses de eu desistir da Feira da Ladra a avó chegou ao fim dos seus dias. Aguentou até aos 100 anos, 1 mês e 1 dia. E no dia em que faleceu ainda tomou o pequeno-almoço. Lá está, a ocupar o seu espaço, ao lado do Sr Gervásio no jazigo do cemitério do Milharado.

Pois eu espero não dar trabalho a ninguém. Fica aqui escrito: não quer viver vegetal. Se estivar ligado a uma máquina quero que a desliguem. Quero ser cremado. Quero que as minhas cinzas voem com o vento… se possível por cima do mar da Ericeira.

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Torpes Freud

É este o malandro do cão, açoreano de uma figa, que me puxou por umas escadas abaixo e me partiu um braço em 4 pedaços...

Mas está desculpado.

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 A nossa banca de artigos militares na Feira da Ladra. Foi a turista que me tirou a foto e que a mandou depois por mail.

 

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publicado às 15:44

A Casa da Praia

por António Tavares, em 04.09.17

A Casa da Praia

Casámos em Maio de 1975. Era para ser em Agosto mas, uma vez em pleno PREC, foi imposto no escritório que as férias fossem escolhidas por sorteio e entre Maio e Outubro, a mim calhou-me Maio. Não faz mal. Disse o Sr Gervásio (pai da Fernanda). Casam em Maio. Lua-de-mel no Algarve.

A Fernanda trazia por dentro do fémur que partira em Janeiro de 1974 um ferro que tinha sido colocado com cerca de 1 cm de fora para poder ser retirado facilmente. Isso fazia com que muitas vezes um pequeno gesto impensado fizesse um hematoma enorme que obrigava a sucessivas aplicações de hirudoid. Cedo manifestou intenção de engravidar porque queria ter um filho cedo. Opus-me enquanto não retirasse o ferro. Foi a única maneira de a convencer. Tirou-o na CUF.

E assim apareceu o Bruno…

No ano seguinte (197) foi abolida, no escritório, a regra das férias por sorteio. Passou a ser por escolha. Quem escolheu primeiro foram aqueles a quem, no ano anterior, tinha calhado Maio e Outubro. Escolhi Agosto. E como a Ericeira era o nosso destino normal de fim-de-semana, lá fomos nós alugar uma casa na Achada para todo o mês de Agosto.

Não havia televisão, nem mesmo rádio. Só formigas. A Fernanda estava grávida e antes de entrar em casa eu tinha que ir varrer as formigas. Senão era vómito pela certa.

Ia-mos à praia todos os dias. Bastava chegar ao início da rampa e lá vinham os vómitos.

A 200 metros (no Sobreiro) tinha a família Machado e a Maria Ilda uma casa alugada para férias e fins-de-semana. O Manuel Machado fora empregado do meu sogro e acabaram por criar uma empatia entre as famílias que se manteve até à morte dele e se mantém ainda hoje com a relação de amizade entre a sua filha Dr Manuela (médica) e a Fernanda. Nesse mês de Agosto ele ficou lá sozinho no Sobreiro e todos os dias aparecia à porta de casa à hora combinada com a toalha às costas para ir connosco para a praia.

Frequentávamos as festas e romarias locais e aos fins-de-semana lá aparecia o Sr Gervásio e a D Palmira, no seu Ford Cortina.

O Bruno nasceu em 1977. Nesse ano e dois seguintes passamos a alugar casa (normalmente em Setembro) já dentro da vila da Ericeira.

Em 1979 foi resolvido, em tribunal, o diferendo entre o Sr Gervásio e a seguradora que representava a condutora que atropelara a Fernanda em Janeiro de 1974. A condutora não se deu como culpada, mas o tribunal obrigou a seguradora a pagar 500 contos.

Estávamos de férias na Ericeira. Tínhamos alugado a casa do pregoeiro da lota do peixe. Ele tinha-nos prometido que se quiséssemos peixe fresco bastava pedir-lhe de véspera. Ainda chegamos a ir à lota arrematar uma “teca” de salmonetes. Uns muito grandes, outros muito pequenos. A falta de familiaridade com a técnica de leilão levou-nos a ficar com eles por um preço muito superior ao que estavam à venda no dia seguinte na praça.

Nesse ano, com os 500 contos na mão, lembramo-nos de vir a Lisboa trocar de carro. Os avós ficaram com o Bruno na Ericeira. Tinha saído na altura um novo modelo Ford Cortina e vínhamos para comprar um. Não havia a cor que queríamos. Deixamos um encomendado. Ainda bem que nunca chegamos a comprá-lo, porque o carro teve tão pouco sucesso que desapareceu das ruas em menos de 5 anos.

Fomos então comprar um carro para o Bruno à Quermesse de Paris, nos Restauradores. A pedais. Verde, com luzes e buzina. Foi um sucesso. O Bruno percorria o Largo do Jogo da Bola na Ericeira a apitar. Todos os garotos queriam ver, mexer, andar… Habituou-se tão bem a ele que, já na casa de Odivelas, ele saía da varanda de trás e ia até à varanda da frente, pela cozinha, átrio e sala, sem tocar num móvel. Foi aí que aprendeu a conduzir.

Mas como não trouxemos um carro novo o senhor meu sogro disse-nos:

- Se desistirem de trocar de carro e quiserem fazer uma casa, eu ofereço-vos o terreno.

Dito e feito. Fomos procurar um terreno. No que restou das férias e nos meses seguintes percorremos todos os caminhos e becos à procura da melhor localização, perto da Ericeira. Eu dizia para a Fernanda:

- Compramos um pinhal apenas para termos um espaço nosso para jogar à bola com o Bruno. Pomos rede à volta e um dia se pudermos fazemos uma casa de madeira…

- Assim não, tem que ser um terreno legalizado e urbanizado. Sei lá se depois a câmara autoriza algum construção.

Assim dizia o meu sogro.

Acabamos por comprar o lote onde temos ainda a Casa da Praia. A 200$00 o metro quadrado, 500 metros. 100 contos oferecidos pelo avô Gervásio. Metemo-nos a construir a casa com os 500 contos recebidos do seguro.

Mandei vir de França livros de plantas de casas. Comecei eu a desenhar uma. Como não podia assinar projectos levei os meus planos a um desenhador oficial que os entregou na Câmara e os fez aprovar.

Passo seguinte: encontrar um construtor. As regras eram estas: para fazer a casa e os muros em volta o construtor dava toda a mão-de-obra e todo o material, areia, cimento, ferro, madeiras, tintas, etc. Nós dávamos todos os acabamentos, loiças, azulejos, etc.

Tivemos orçamentos de até 3.500 contos.

Escolhemos o sr Carlos que nos foi indicado pelo desenhador. 1.500 contos. Estava em início de carreira de construtor, nós quisemos aproveitar. Mesmo com um caderno de encargos redigido ao pormenor, aceite e assinado, correu muita coisa mal.

Começou porque nos planos estava que a garagem deveria ficar enterrada a toda a dimensão da casa.

Veio dizer que o solo era demasiado duro para a máquina que ele tinha. Que precisava de alugar uma de rastos e isso era muito mais caro.

- Alugue lá essa máquina que nós pagamos a diferença.

Disse o meu sogro.

O desenhador era também o responsável, perante a Câmara, pela fiscalização da obra. Certa vez liga-nos o construtor:

- Olhe que esteve cá o desenhador/fiscal que esteve a ver o ferro que eu pus nas vigas e não aceitou. Em contei com verguinhas de 11 e ele exige de 15, que parece que é o que está nos planos. Mas eu não contei com isso.

- Coloque que nós pagamos a diferença…

Para evitar a humidade no chão da garagem tinha escrito no caderno de encargos que chão deveria ser rebaixado cerca de meio metro e feito um enrocamento com pedras e gravilha por cima. Como não podia fiscalizar as obras durante a semana, o meu sogro metia-se no carro e aparecia lá frequentemente. Descobriu que para encher o chão estava a meter na betoneira, 2 pás de terra 1 pá de areia e outra de cimento. Por isso é que, antes de colocarmos os mosaicos, cada vez que varríamos a garagem se levantava uma nuvem dó.

Tínhamos acordado que o terreno, que era inclinado, deveria ser nivelado o mais possível. Para isso o muro de trás deveria ser levantado até à altura necessária para conter as terras. Quando dei pelo muro já feito obriguei-o a subi-lo mais um bocado. Que não estava nos planos, dele, que já estava alto o suficiente.

- Suba que nós pagamos…

Compramos materiais de acabamento de primeira categoria. Azulejos estilo século XVII feitos à mão na Fábrica de Sant’ana. Custou cada um 150 escudos, no tempo em que um azulejo de construção custava 11 escudos.

- Que porcaria de azulejos que compraram. Cada um de seu tamanho. São muito irregulares. Dão muito mais trabalho…

Dissemos-lhe que os azulejos da casa banho da garagem não podiam ser molhados antes de serem colocados. Chegamos lá um dia e eles tinham o vidrado todo estalado. Tinham sido imersos em água.

- Olhe, estes eu não lhe trago outros e você vai tirá-los e vai à procura de outros iguais…

Pegou numa picareta e pôs-se a parti-los todos…

Entrámos na sala e verificamos que metade tinha a tijoleira bem posta. A outra metade estava aos altos e baixos.

- Há … sabe … aquela parte foi posta pelo meu empregado, esta parte foi posta pelo meu padrinho…

- Não quero saber. Eu posso trazer mais tijoleiras, mas você vai arrancar esta parte toda e vai colocar de novo.

Depois disto tudo e depois de receber o combinado ainda queria ir medir o muro de trás porque estava mais alto que o previsto. Que não tinha ganhado nada com aquela obra. Que mal tirara para o ordenado. Queria mais dinheiro.

- Eu vou ter com o seu sogro à feira da Malveira…

- Então vá…

Ficámos por aqui.

Nome para a casa? Vamos chamar-lhe Casa da Praia. Porque, estando em Lisboa e se alguém perguntar: onde vamos este fim-de-semana? O mais certo será dizer: vamos à Casa da Praia! Não sei porquê, mas este nome nunca entrou no nosso léxico. Dizemos sempre: vamos à Cabeça Alta!

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A Casa da Praia em construção

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A Casa da Praia terminada. E o Cortina do Sr Gervásio. Faltam ainda os gradeamentos de trás. Através do portão vê-se, à esquerda, o muro para suster as terras que eu estava construindo e em frente as escadas para subir para a frente da casa, também ainda em construção.

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 A Casa da Paria hoje.

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publicado às 11:14

Dr e Mestre

por António Tavares, em 21.08.17

Dr e Mestre

Os meus contactos pessoais ou políticos nunca foram muitos. Sempre me vali do meu trabalho. Em termos profissionais também sempre achei que nunca se deveria permanecer muito tempo no mesmo lugar. Apenas o tempo suficiente para se apreender o essencial da função e partir para outra…

Gostava do trabalho de Organização e Métodos. Era o responsável pelo estudo do trabalho das secretarias administrativas da área técnica, mas quando se criou uma estrutura hierárquica interna foi o Fernando Carvalho que foi nomeado chefe da Área Administrativa. Lavrei o meu protesto, mostrei a minha indignação e comecei a procurar novo emprego.

O Fernando Carvalho (já chefe) conseguiu o apoio da empresa (TLP) para ir tirar um mestrado. Eu não consegui esse apoio (também não o pedi) mas fui por minha conta. ISE, mestrado em Economia, ramo Planeamento.

O novo responsável pela Direcção de Planeamento pretendeu dar alguma modernidade ao funcionamento de toda a direcção. Encomendou um IBM PC. O primeiro a entrar naquela direcção. Até aí tudo era feito manualmente. Ninguém sabia mexer com ele. Nem queria aprender. Quando soube deste facto fui-me apresentar.

- Quero eu. Até estou a tirar o mestrado em planeamento…

E fui. Fui trabalhar para a área de Planeamento e Controlo da Direcção de Planeamento dos TLP. Fui tirar um curso de Lotus 123 (uma das primeiras folhas de cálculo). Passei todas as tarefas rotineiras mensais para folhas de cálculo. Todos os meses bastava acrescentar os valores mensais e imprimir os relatórios.

Folhas de cálculo, processador de texto, Lotus Freelance (grafismos), software de apresentações, etc. De tudo me vali para dar uma volta nas apresentações das reuniões mensais de controlo. Foi um secesso. E só havia uma impressora de agulhas. O próprio logotipo dos TLP foi desenhado por mim, ponto a ponto com o Freelance. E a cores. Foi necessário comprar uma nova impressora e a cores. Foi a primeira vez que apareceu o logotipo dos TLP a encimar mapas ou apresentações. E toda a gente que produzia mapas e apresentações o passou a utilizar.

O responsável pela área de controlo operacional recebeu mesmo um louvor público pelo sucesso das suas apresentações nas reuniões de controlo. Quis que fosse trabalhar com ele. Não autorizaram a minha transferência.

Numa das cadeiras do mestrado discutia-se o conceito de Gestão por Objetivos. O professor tinha no currículo a participação em gestão de grandes projectos a nível internacional, mesmo no âmbito da ONU, como o caso que nos narrou da construção de um sistema de túneis para trazer a água subterrânea do meio do deserto do Sara para Trípoli (capital da Líbia). O rio subterrâneo passou a nascer em Trípoli através de uma cascata.

Explicava ele que num projecto de devem começar por definir o objectivo final e depois vir para trás indo definindo objectivos parcelares necessários para se obter o objectivo seguinte. Quando se chega ao início tem-se a visão de todo o projecto e dos caminhos possíveis ou alternativos. Podem assim fazer-se opções consistentes para atingir o objectivo final.

- Isso é muito giro, professor, para grandes projectos. Mas eu trabalho com pequenos projectos…

- Isto aplica-se a todo o tipo de projectos. Mesmo da natureza individual. Quer um exemplo? Um rapaz aos 15 anos faz o projecto da vida dele. Objectivo final: ser rico aos 35 anos. Caminho para lá chegar? Ser médico. E dentista. E dentista porquê? Porque cada pessoa representa 32 doentes. E com consultório nas Avenidas Novas. Mas para isso tenho que entrar em medicina. E para entrar em medicina tenho que acabar o liceu com 18 valores, pelo menos. Então qual é o ponto de partida? Estudar muito. Mas podemos sempre estudar alternativas. Querem uma alternativa? Casar com uma mulher rica! E o caminho? New look, vestir bem e frequentar sítios chiques…

Acabado o mestrado achei que tinha que partir para outra. Dentro dos TLP não conseguia que alguém me valorizasse mais. Recomecei a responder a anúncios.

Para me compensar de qualquer maneira, o director, (que até gostava do meu trabalho, mandou-me 8 dias para Nice participar num congresso de computação gráfica. 1988. Achei que era um prémio e fui.

Uma vez um engenheiro amigo meu levou-me a um almoço dos TSD (trabalhadores social democratas). Na nossa mesa estava um chefe de gabinete do ministro da administração interna. Conversa puxa conversa fui chamado para chefiar um projecto de informatização numa das secretarias. Era sob requisição, mas aceitei.

Quando chegou aos TLP a minha requisição tive que desistir porque entretanto tinha concorrido para a Marconi e tinha sido chamado. E entre um lugar provisório (mas político) e um lugar não político mas definitivo, eu optei pelo último.

Estávamos mais uma vez no boom das telecomunicações. Passava pela minha mão o controlo do dinheiro gasto nas empresas em que os TLP participavam. E todos os meses eram enterrados milhares de contos na TMN, empresa em formação e participada de forma igual pelos CTT e pela Marconi. Nas reuniões de controlo toda a gente dizia que o futuro eram as comunicações móveis.

- Imaginem um engenheiro a fiscalizar uma obra, tem dúvidas sobre a evolução de um certo trabalho, pede uma imagem duma peça. Tira uma fotografia do local e manda para o escritório…

Diziam.

- Mas está tudo maluco ou quê? Pensei eu. Alguma vez será possível que saia um fax de dentro de um telemóvel?

À vista de hoje portei-me mesmo como um velho do Restelo!

Dos anúncios a que respondi fui chamado para uma entrevista para a Marconi – Direcção de Informática e Organização. Falhei a primeira entrevista porque a minha sogra estava doente e para dar apoio em casa não fui à entrevista. Marcaram para outro dia e voltei a faltar. Falei por telefone com a pessoa que ia fazer a entrevista e diz ele:

- Não faz mal. Você está nos TLP, não é? Vá à consultora fazer os testes psicotécnicos que eu prescindo da entrevista.

A guerra entre as empresas era tão grande que bastava eu estar nos TLP para ser aceite na Marconi.

Fiquei em primeiro e fui chamado.

Quando fui avisar o director que me ia embora para a Marconi, diz-me ele:

- Agora que consegui para si um lugar de Chefe de Divisão?

Se conseguiu ou não, não sei. Talvez pudesse ter conseguido, porque passados alguns meses foi nomeado administrador.

Mas entrei para a Marconi em Outubro de 1989. Mais uma vez à experiência de 6 meses, sem a Fernanda saber. Isenção de horário, 18 ordenados por ano. No tempo em que a Marconi era uma “blue chip” da bolsa de Lisboa. Cada acção valia 36 contos. Em segundo lugar no concurso ficou uma rapariga, mulher de um professor universitário, ligações com o PS.

Quer um que outro, acabaram por ir parar à Marconi, mais tarde. Ela para a Direcção de Pessoal responsável pelos orçamentos. Mas quem desenvolveu a aplicação informática fui eu em Lotus 123. E fui eu que a mantive a funcionar até ao fim da Marconi. Já eu estava no Controlo de Gestão da Marconi, sem chefia e esperando ser promovido a chefe, quando o marido foi admitido directamente para ser meu chefe. A directora também tinha ligações ao PS.

Mais uma vez, quando saí dos TLP para a Marconi, levei todo o pessoal da Direcção de Planeamento para uma sardinhada na Casa da Praia. Incluindo o director. Gostou tanto da Ericeira que acabou por comprar uma casa em Mafra. Cheguei a ir lá uma ou duas vezes. Dizia-me ele depois que fizera muito mal em me vir embora. Que contava comigo. E chegou longe. Chegou a administrador da PT. Talvez tivesse feito mesmo mal…

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publicado às 11:33


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