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Finalmente Dr

por António Tavares, em 16.08.17

Finalmente Dr

No verão de 1974 (pós 25 de Abril) o governo decidiu que as faculdades não iriam ter primeiros anos nesse ano. Foi aqui que se gerou uma confusão com toda uma geração que nesse ano devia entrar nas faculdades. Foi resolvida com a criação do ano propedêutico, mais tarde 12º ano.

Mas os ex-militares sempre gozaram de um estatuto especial porque, para os compensar da ida à guerra, podiam tirar cursos com currículos abreviados. Em Outubro desse ano juntamo-nos no ISE (hoje ISEG) e exigimos ter aulas nesse ano. Criou-se uma comissão, combinamos com os professores que foi possível. Criou-se um currículo só para nós e apresentámos a proposta. Não foi aceite.

Insistimos no ano seguinte 1975/1976. Já havia primeiros anos, mas nós, ex-militares conseguimos mesmo uma turma e um currículo especial para nós. De Outubro a Março fizemos 2 anos (1º e 2º) e de Março a Julho fizemos o 3º ano. Ou seja o curso de 5 anos foi tirado por nós em 3 anos. E não havia ainda Bolonha….

Foi durante a minha licenciatura que a secretária dos patrões se incompatibilizou comigo. A princípio gostava muito de mim e tratava-me quase como filho. Quando comecei a estudar no ISE metia por vezes baixa na altura dos examos para estudar. Mas ia às aulas que começavam pelas 19 horas. Ela saía do escritório pelas 18 horas e deslocava-se para casa em Campo de Ourique. Cruzávamo-nos muitas vezes nos nossos carros no mesmo percurso. Fez-me a vida negra a partir daí: queixas ao patrão, que estava de baixa mas ia para a faculdade, participações à Segurança Social, etc. Nunca mais me pode ver.

A última discussão do último trabalho da última cadeira do último ano feita, já nós estávamos de férias na Ericeira, numa manhã de um domingo de Agosto, em plena esplanada do Jardim das Estrela, a olhar para os patos e a beber uma imperial…

Média de 13 valores. Nem Bom nem Mau… assim, assim…

Em 1982, acabada a licenciatura, comecei a procurar nova profissão. Até porque com a adesão primeiro à EFTA, depois à CEE, começaram a ser eliminadas as barreiras alfandegárias e previa-se que a profissão de despachante tenderia a desaparecer com o tempo. Não desapareceu mas veio mais tarde a ser muitíssimo reduzida.

Eu e um grupo de despachantes licenciados criamos um grupo de pressão para sermos integrados na própria Alfândega. Nunca dei muita importância a esta solução que veio mesmo a acontecer mais tarde, porque o que queria era mudar para outra área.

Comecei a responder a anúncios na área da gestão, informática, sistemas, etc…

Qual não foi o meu espanto quando numa entrevista para uma empresa de sistemas de informação sou recebido por uma das filhas do patrão Despachante Oficial. Ela conheceu-me e eu conheci-a. Afinal aquela empresa também era de um dos meus patrões.

Dois dias depois o sr Visconde chamou-me. Cristão, opus dei, benfeitor de igrejas e de hotéis de padres em Fátima… Que era indesejado ali no escritório, que estava a dar a morada e o telefone do escritório como se fossem meus para eu receber contactos…

- Se tem algum motivo para me despedir, despeça-me…

O nosso sindicato tinha negociado um ACT que previa o pagamento de 6 meses de ordenado por cada ano de trabalho. E já eram 13.

- Não te despeço porque não tenho motivos para isso. Mão não gosto de ti aqui. Arranja emprego e vai-te embora…

Felizmente, logo em Setembro de 1982, acabei chamado para os TLP. Trabalhar em Organização e Métodos.

Apresentei ao patrão uma carta reivindicativa onde dizia que só ficava se me pagasse isto e isto e mais aquilo. Que era o que ia ganhar num novo emprego que conseguira. Mentira! Fui ao sindicato e informei-me daquilo que teria direito em caso de me ir embora. Levei uma carta do advogado do sindicato e entreguei-a no escritório. Pagaram-me rigorosamente o que a carta dizia. Exigi uma carta de recomendação onde fossem explicadas as minhas capacidades profissionais.

Antes de me ir embora o patrão chamou-me, deu-me a dita carta de recomendação e pediu-me para assinar um acordo em eu e ele acordávamos numa saída por mútuo acordo. Acedi. Afinal já não valia a pena fazer mais guerras. Já não me lembro do conteúdo da carta de recomendação. Mas sei que foi feita em termos elogiosos.

Entrei para os serviços de organização dos TLP em Outubro de 1982. À experiência por 6 meses. Eu o Fernando Carvalho e a Clementina (mais tarde professora no ISCTE e responsável pelos mestrados). Entramos numa altura do boom das comunicações, num período de profundas transformações, Marconi, CTT, TLP. Fusão, não fusão. Gestão comum, gestão separada…. Empresas todas na área da gestão pública. Entram novos gestores mas não saem os antigos. Compra-se um prédio para ficarem todos nas prateleiras, com secretárias e tudo…

Nesta confusão passaram-se 10 meses, nós estávamos num prédio velho da Rua das Pretas. Sem chefia. Sem nenhuma orientação. Íamos ter com os responsáveis da Rua Andrade Corvo e só nos diziam:

- Deixem-se lá estar. Alguém irá ter convosco…

E assim passaram os 6 meses e nós entramos definitivamente para os TLP.

Quando finalmente assentou uma estrutura na empresa e tivemos um director, fomos fazer um curso de 10 meses de Organização e Métodos. Curso com interesse mas que nunca conseguimos aplicar. As guerrilhas internas nunca permitiram. Estava responsável pelo estudo das secretarias administrativas das centrais telefónicas. Fiz muitas análises e propostas de solução. Foram poucas as que foram implementadas.

E quando um dia acompanhei o nosso director numa visita ao departamento de engenharia dos TLP disse-lhe, orgulhoso:

- Aqui está o meu primeiro trabalho de organização nesta casa: a reorganização deste espaço para criar um gabinete para a secretária…

 Nem me deixou acabar e à frente de toda a gente (umas 20 ou 30 pessoas), com uma mão na anca e a outra a apontar em arco para toda a sala por cima das pessoas disse em voz grossa:

- Pois o meu primeiro trabalho em organização nesta casa foi mudar o mobiliário todo desta gente. Quando cheguei tinham secretárias de madeira do tempo dos ingleses. Eu comprei secretárias metálicas modernas e funcionais para toda a gente…

Toma e embrulha! Tive que me reduzir à minha insignificância…

Este director era muito conhecido pelo seu ar de galã (de que se dizia que tinha muito proveito) e de peito levantado. Sempre bem relacionado mas distante dos seus subordinados. Quando, passados 2 anos, mudei para outra área de trabalho dentro dos TLP convidei todo o pessoal da área de Organização e Métodos para uma sardinhada na nossa Casa da Paria na Ericeira. Ele também foi. Coisa que espantou toda a gente, porque normalmente ele não alinhava neste tipo de iniciativas. E até levou a esposa. E os filhos. E até segurou na mangueira para se lavarem os pratos. Dizia a esposa para a Fernanda:

- Oh… é só isso que ele sabe fazer, pegar na mangueira…

Involuntariamente ainda lhe pregamos uma partida sem querer. O carpinteiro tinha-nos entregue a mesa e os bancos da adega na véspera. Como eram de pinho quisemos passa-los todos com bondex. Não sei porquê no banco na ponta onde ele se sentou (à chefe) o bondex não secou. E quando se levantou ficou com os calções brancos do ténis manchados de bondex no rabo.

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publicado às 15:26

Roubaram a minha filha

por António Tavares, em 19.07.17

Roubaram a minha filha

A Fernanda fazia parte da meia dúzia (menos…) das raparigas que se mantiveram até ao fim da minha comissão militar, como minhas correspondentes. Era de longe aquela com quem mais me correspondia e mais desabafava. Já quase nos correspondíamos como namorados.

Até que algures ali pelo início de Janeiro de 1974 deixei de receber cartas dela. Todos os dias lhe escrevia e nada de respostas. E logo agora que acabara de comprar um conjunto de caneta e esferográfica para lhe enviar pelos anos, com o nome dela gravado e tudo. Parece que o mundo todo se estava a desmoronar.

Até que passado algum tempo lá veio uma carta. Abri-a a medo. Temia a resposta. Afinal os meus medos eram infundados. Ela tinha sido atropelada na Av. da Liberdade quando regressava da faculdade, tinha partido uma perna e estava em casa à espera de ser operada.

De um receio passei para outro: do medo de me ter esquecido, mudei para o medo de que algo pudesse correr mal com ela…

O resto do tempo, Janeiro a Maio, passei-o com muita ansiedade.

Assim que regressei a Lisboa telefonei-lhe e combinamos um encontro em casa dela, para o primeiro domingo que foi possível. Saí do comboio no Rossio e comprei-lhe um ramo de rosas vermelhas. Subi a pé a Rua dos Cavaleiros até ao número 5 da Rua de Santa Marinha, 4º andar esquerdo.

Fui recebido em festa. A Dona Palmira esmerara-se a limpar a casa e a preparar uma refeição ligeira.

A Fernanda tinha sido operada. Tinham-lhe colocado uma barra de metal no interior do fémur partido, com um pedaço de fora na anca, para mais tarde ser puxado e retirado. Aos poucos já se levantava e sentava. Mas estava renitente em descer as escadas, mesmo apoiada nas bengalas.

Como trabalhava no Campo das Cebolas e saía às 18 horas, passava quase sempre pela Rua de Santa Marinha. Fazia-lhe companhia, acabava por ficar até ao jantar e só depois seguia para Queluz de comboio. Aos domingos lá vinha eu depois do almoço com um ramo de rosas vermelhas comprado no Rossio. Aos poucos passei a vir almoçar todos os domingos.

A Olga (uma amiga da Fernanda – acabou por vir a ser a madrinha do Bruno) tinha uma filha pequena (Alice) e um Mini. Começamos a levar a Fernanda a dar uns passeios de carro. Depois eu comprei um Fiat 128. Agora já podia levar a Fernanda a passear. Ao princípio a Olga ia connosco. Os pais dela tinham mais confiança e ela sempre ajudava a descer as escadas e nos passeios a pé.

Certo dia diz-me a D Palmira:

- Você foi um anjo que nos apareceu. Cheguei a pensar que ela não ia sair mais de casa.

O sr Gervásio gostava de conhecer a minha família. Lá fomos num domingo até Cardigos conhecer o sr José Maria e a D Delfina. Já todos os meus irmãos se encontravam em Lisboa, pelo que só foram conhecer os meus pais. No regresso a Lisboa fizemos um desvio pelo Gavião onde fomos conhecer o Padre Alberto (superior do seminário local). Ele era um dos dois padres do Casalinho e tinha mantido uma certa simpatia comigo, sempre que ia lá de férias. O irmão (padre Serafim) era pároco em Tolosa (Alentejo).

Os pais da Fernanda tinham-lhe comprado um andar em Odivelas. Passou a ser também um dos nossos passeios de Domingo, ir até Odivelas.

Os pais da Fernanda eram feirantes e faziam feiras em 2 domingos por mês. Nesses domingos em que eles iam para a feira ficava lá em casa a tia Hortense, para tomar conta da Fernanda e nos fazer o lanche. Nos outros domingos íamos os quatro dar uma volta: Mafra, Ericeira e voltávamos por Odivelas. Primeiro na carrinha Austin do sr Gervásio, depois no meu Fiat 128.

Quando acontecia ser feriado em dias de feira nós metíamo-nos nos transportes e íamos ter com eles. Fomos algumas vezes ter a Odivelas à feira do sr Roubado, à segunda-feira. Voltávamos todos no Austin mini. Juntamente com as madeiras da bancada (no tejadilho) e com os artigos da venda na parte de trás.

Nessa altura estava a ser construída a Calçada de Carriche no local por onde ela passa hoje. A descer ia-se pela estrada do desvio, mas a subir era por aquela azinhaga velhinha que em parte ainda lá está. Na altura toda aquela subida nova era (e foi muito tempo) ainda de terra batida. O sr Gervásio acelerava a fundo cá em baixo para subir, mas, na maioria das vezes, o mini parava a meio. Não aguentava. Saíamos os três (eu a Fernanda e a mãe) e tínhamos que empurrar até ao cimo da ladeira.

Mais tarde, já casados, o sr Gervásio trocou o Austin por uma carrinha Ford Cortina. Mesmo assim íamos muitas vezes ter com eles à feira da Malveira (no nosso carro), ou à feira da Brandoa, aos domingos no regresso da Ericeira.

Certo dia, vindo eles da feira da Malveira à quinta-feira, foram ter connosco à casa de Odivelas. Jantaram e porque estavam cansados ficaram lá a dormir. O carro carregado ficou estacionado mesmo à porta. Hora a hora a D Palmira levantava-se para ver se estava tudo bem. E esteve até às 5 horas da manhã. Nessa altura foi à janela e viu o carro assaltado e as botas da venda espalhadas pelo chão.

Levantamo-nos a correr e fomos participar à esquadra da polícia.

Depois eles vieram para Lisboa e foram ter com um sujeito quem, mesmo deficiente e em cadeira de rodas, parece que chefiava um gang e costumava parar numa tasca do Largo Rodrigo de Freitas, perto da casa deles. Diz-lhe ele:

 - Botas? Em Odivelas? Já sei, foi o Zé Luis da Brandoa. Deixe estar que amanhã falo com ele.

E falou e ainda conseguiu trazer alguns pares de botas.

- Olhe sr Gervásio, foi o que ainda consegui. O resto já ele tinha vendido.

Passado uns meses o sr Gervásio foi chamado a esquadra de Odivelas para ser informado que o ladrão não tinha aparecido e que iam arquivar o processo.

- Deixem lá, não faz mal. Já consegui recuperar o que foi possível.

Embalado deixei-me levar pelas recordações. Vamos voltar à narrativa onde íamos…

Aos poucos fui ficando íntimo da família Cardoso. Ofereci um anel de noivado à Fernanda e pedia-a em casamento. Fui aceite. Combinamos o casamento para Agosto de 1976. Assim os passeios de Domingo passaram a servir para visitar a casa de Odivelas e ir combinando a compra das mobílias. O Sr Gervásio comprara a casa pagou toda a mobília.

Aconteceu que o escritório do despachante entrou em autogestão. Estávamos em pleno PREC (período revolucionário em curso) pós 25 de Abril. Tinha sido eleita uma comissão de trabalhadores. O Manel Lopes, Chefe do Grupo Desportivo, foi o eleito. Foi nomeada uma Comissão de Gestão. O meu primo Manel de Moura apoiou-nos. Como era o braço direito do patrão, foi nomeado para a gerência. Já havia antes distribuição de lucros pelos empregados, segundo os critérios que o patrão entendia. Sempre os recebi. Mas nós exigimos acesso às contas e distribuição de lucros igual para todos. Quando, anos mais tarde, tudo isto reverteu, os mais envolvidos nisto tudo foram os mais prejudicados. Eu e o Manel Lopes incluído. Nunca mais recebi lucros e o patrão nunca mais perdoou ao seu braço direito (o meu primo Manel de Moura) a sua traição.

Chegados a Março havia que marcar as férias. Todos queriam os melhores meses. Não ouve consenso. Decisão da comissão de gestão: as férias são gozadas obrigatoriamente entre os meses de Maio a Outubro (segundo a lei) e escolhidas por sorteio.

Tínhamos decidido casar em Agosto e para espanto de tordos cai-me em sorteio o mês de Maio para férias.

Já no ano seguinte (1977) foi decidido anular o sorteio e fazer uma escala para cada um escolher, mediante alguns critérios. Os primeiros a escolher foram os que tinham ido de férias em Maio e Outubro, depois os que foram em Junho e Setembro. Por fim os de Agosto. Nesse ano é claro que eu escolhi Agosto. Naqueles tempos havia a tradição de se gozar um mês seguido de férias.

Mas voltando atrás. Diz o sr Gervásio:

- Não faz mal. Casam em Maio.

Marcamos casamento para o início do mês.

Igreja dos Jerónimos, Copo de água no restaurante Cozinha Velha do palácio de Queluz. Estava tudo combinado quando me deu o badagaio, 15 dias antes da boda, que me levou a ser operado ao apêndice, já com a infecção a passar a peritonite. Foi necessário negociar o adiamento para o dia 18 de Maio. Conseguiu-se. Mesmo acabado de sair do hospital de ser operado, lá casámos.

Eu não assisti. Mas conta-se que a saída da Fernanda de casa dos pais fez furor. À porta do nº 5 da Rua da Santa Marinha um Rolls Royce dos anos 20 descapotável. No átrio da escada jarrões azuis com plantas. O trânsito cortado. Todas as janelas tinham curiosos à espreita.

Dizia depois o primo Vicente do Milharado, sobrinho do Sr Gervásio:

- A Fernandinha podia ter arranjado um carro mais bonito… foi arranjar um carro tão velho…

Eu fui levado no meu Fiat 128 pelo Carlos (marido da minha irmã Helena – meus padrinhos) de Queluz aos Jerónimos. Entrei pela passadeira vermelha até ao altar. Quem casou depois de nós ainda beneficiou: pagámos a passadeira vermelha, as flores e a música. Eles entraram a seguir.

Depois da cerimónia lá fomos para almoçar. Os convidados seguiram nos seus carros. Nós atrás no Rolls Royce. Quando chegamos a Queluz já havia pessoas a querer voltar atrás à nosso procura. É que o velho Rolls Royce viu-se negro para subir os Cabos Ávila.

Almoço fino. Uns camarões à não sei quê, um pato com qualquer coisa. Tudo contado e medido. O sr Gervásio tinha entregado um cheque assinado ao sr Vidal para no fim pagar a conta. Quando vieram os whiskies o sr Gervásio reparou que os empregados os estavam a racionar para não exceder as garrafas combinadas. Chamou um empregado e disse:

- Coloque aqui várias garrafas. No fim pagam-se as que se beberem.

Acabado o repasto e as fotografias, a tia Alice e o Cabral, juntamente com outras pessoas, foram comer sandes para uma tasca que havia em frente.

- Esta comida não é para nós!

Nós não esperamos pelo fim da festa. Mudamos de roupa e fugimos para a casa de Odivelas.

Parece que a D Palmira fez algum banzé:

- Roubaram a minha filha!

Tudo acabou em bem.

No dia seguinte rumámos ao Algarve. Sem nada marcado. Assentámos arraial em Faro e por lá andámos cerca de 10 dias. Até o dinheiro acabar. Não havia multibanco na altura.

No regresso almoçámos em Castro Verde. Pedimos bifes. Acho que pouco mais havia. Mas ao fim de 45 minutos de espera fomos obrigados a chamar o empregado. Que fizesse a conta ao que já tínhamos comido… que não podíamos esperar mais…

Fernanda1.jpg

Era linda ... a minha namorada!

Fernanda Bengala1.jpg

 Os primeiros passeios com a Olga e com a bengala!

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Na casa de Odivelas. O Bruno ao cola da mãe.

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Na casa de Odivelas. O presépio que tinha um rio a correr e uma azenha.

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O pai da noiva a pegar-lhe para a levar ao altar. O medo de sair do Rolls Royce era tanto que até o motorista estava atento.

Depois já casados.

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Enfim... já casados.

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Lua de mel no Algarve. Uma selfie tirada nos jardins do Hotel Penina.

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Lua de mel no Algarve. Cheirar rosas e acácias na serra de Monchique.

Presunto grelhado.jpg

Lua de mel no Algarve. Aqui comia-se presunto grelhado e bebia-se Schweppes Maracujá. E fumava-se SG Gigante.

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publicado às 12:41

Despachante na Alfândega

por António Tavares, em 07.03.17

Despchante na Alfândega

Ser ajudante de despachante alfandegário era, na altura, dos empregos mais bem remunerados, para além da sensação de liberdade.

O despachante oficial era na prática o intermediário entre os importadores (ou exportadores) e o estado. Eles faziam a vistoria à mercadoria, calculavam os diretos e impostos a pagar ao estado, tratavam da documentação e da entrega da mercadoria ao dono ou da sua saída do país. Era uma classe muito fechada e que se auto protegia. Só podiam entrar para despachantes quem já tivesse alguns (muitos) anos de ajudante de despachante. E mesmo assim eram sujeitos a provas rígidas. E mesmo assim era preciso que a Direção Geral das Alfândegas abrisse concurso para isso. Na prática os grandes escritórios de despachantes (alguns com mais de 100 empregados) dominavam até a nomeação de novos despachantes, para manterem a sua posição dominante.

Normalmente os despachantes grandes (como o caso do meu patrão – tinha 85 empregados) tinham ajudantes especializados em cada tipo de transação: importação via marítima, via aérea, exportação, encomendas postais, combustíveis, etc. Eu estive quase sempre nas importações avulsas no Jardim do Tabaco, Alcântara, Xabregas os nas encomendas postais, na Rua da Palma.

Não havia computadores. Os despachos aduaneiros eram tratados em folhas de papel grosso, para aí com 40 por 60 cm, dobradas ao meio. Neste papel eram colados todos os documentos respeitantes à mercadoria. Qualquer pedido para alterar alguma coisa, prolongar prazos, ressalvar qualquer lapso, pedir nomeação de verificadores, etc. era exarado de forma sequencial no despacho e só podia ser assinado pelo próprio despachante oficial.

Mas estavam permanentemente na rua dezenas de ajudantes em várias partes de Lisboa. Era impraticável que sempre que fosse necessário uma rúbrica ele se deslocasse ao sítio ou que o despacho fosse levado ao escritório para ele assinar. A solução: criar uma rúbrica que todos soubessem imitar. E todos os ajudantes assinavam com a rúbrica do sr despachante.

E toda a gente sabia disso. Incluindo os próprios funcionários aduaneiros. Às vezes viam-nos escrever um pedido, sair da sala e voltar em menos de um minuto. Perguntavam:

- Já foste ai escritório para o patrão assinar?

- Não, fui só ali fora. Ele estava ali dentro do carro.

O mesmo acontecia quando o patrão estava de férias. Oficialmente para se ausentar ele teria que pedir primeiro na Alfândega para um dos seus ajudantes o substituir.

Mas ninguém levantava ondas. Os donos das mercadorias queriam era vê-las desalfandegadas mesmo que isso lhes custasse um pouco mais. Então era usual nós darmos 5$00 por cada intervenção de cada funcionário em cada despacho. Havia por exemplo um cuja missão era numerar os despachos. Com um carimbo de metal redondo a que regulava a data, com um cabo alto de madeira de onde saía um botão que ao ser pressionado mudava o número, ia molhando numa almofada e pumba… pumba… pumba… ia martelando em todas as páginas e documentos do despacho, pondo em todas o mesmo número. Esse funcionário ia anotando num cartão que tinha no bolso com riscos, o número de despachos que foi numerando de cada um dos despachantes. No fim do dia vinha ter connosco: foram 8. Lá iam 40$00. E muitas vezes deixavam amontoar de propósito, os despachos a numerar.

- ò sr Joaquim tenho aí um despacho há já algum tempo. Tenho muita pressa.

É que passar um despacho do fundo do monte para o cimo contava a dobrar, eram 10$00.

E cada despacho passava por mais de meia dúzia de funcionários, cada um com a sua missão específica.

Entravamos no escritório do Campo das Cebolas às nove horas. Se havia tarefas a fazer, fazíamos. Normalmente já tinha-mos os despachos para esse dia prontos de véspera. Levantávamos o dinheiro necessário na caixa e aí vamos nós, Lisboa fora. A maior parte dos dias nem vínhamos à hora de almoço.

No fim do dia nós fazíamos a conta a todo o dinheiro gasto. Juntávamos as nossas despesas de transporte e outras. Arredondávamos com uns pozinhos para nós e entregávamos os documentos de despesa.

Naquele tempo quase não havia contentores. As mercadorias vinham a granel amontoadas dentro dos porões dos navios. Uma das mercadorias que despachei dezenas de vezes foi amianto. Vinha em sacos às costas dos estivadores do navio para o armazém e eu tinha que estar ao pé deles para ir contando os sacos entrados.

No fim do dia andávamos a passear por cima de pó de amianto. E tínhamos que o varrer.

Por vezes as mercadorias eram especiais e nós pedíamos uma “descarga direta”. As caixas eram descarregadas diretamente para os meios de transporte e seguiam, acompanhadas com um Guarda Fiscal, para casa do cliente. Nós íamos depois às instalações do cliente fazer o “exame prévio”, verificar se estava tudo certo conforme a fatura. Com o despacho pronto tínhamos que levar lá o verificador aduaneiro.

Era assim com as caixas com peças para a Renault na Guarda onde eram montados os R6. Às vezes eram dezenas de vagões carregados. Ou postes para rede elétrica, dada a sua dimensão. Ou a montagem da fábrica completa de produção de gás de cidade, na zona da Matinha (hoje desativada).

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publicado às 10:00


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