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Jantar com lacraus e o regresso

por António Tavares, em 24.07.17

Jantar com lacraus

e o regresso

Estava em Nampula um amigo meu, Tenente, que tinha uma carrinha Volkswagen variant vermelha. Demos muitos passeios nela. Eu arranjava a gasolina em jerricans militares e aí íamos nós.

Até António Enes (hoje Angoche), 300 quilómetros abaixo de Nampula. Havia lá um aquartelamento de retaguarda. Não era zona de guerra. Boas praias. De vez quando eramos convidados para uma festa. Caçavam um javali. Espetavam-no no espeto. Brasas por baixo. Arranjava-se um mainato para ir dando à manivela e ir barrando com molho especial. Nós era só espetar o garfo, cortar e comer. E beber cervejas. Fizemos isto várias vezes.

Íamos até à Praia das Chocas. Esta praia fica alguns quilómetros acima da Ilha de Moçambique, seguindo a linha da costa. Por estrada são bem mais de 100. Há que fazer um percurso pelo interior do continente para atravessar braços de mar, pântanos e zonas de salinas, passando pelo  Lumbo e pelo Mossuril. Esta praia Ganhou fama quando a Ilha de Moçambique era a capital e o principal polo comercial. Era a praia de férias de todos os comerciantes da zona. Desde Nampula eram perto de 300 quilómetros.

Quilómetros de praia de areia branca e águas límpidas de cor azul opala. Grandes moradias. Morava numa delas um alemão que, dizia-se, seria refugiado nazi. Tinha por companhia apenas uma cobra gigante. Caçava e criava coelhos para lhe dar. Era a certeza que nunca seria assaltado. A cobra, dizia quem a viu, tinha a cabeça na cozinha, percorria os corredores e saía pela porta para o quintal.

Parece que o sujeito vivia do comércio internacional de conchas. Percorria as praias três dias para cima, três dias para baixo, a apanhar conchas. Depois vendi-as aos seus correspondentes do mundo inteiro.

Teria sido em tempos engenheiro ou arquitecto. Parece que toda a gente que construía casa ali lhe pedia conselhos. Ele conhecia as marés e os ventos. Sabia qual a melhor localização e orientação da casa, no sentido de tirar o melhor partido das condições locais.

Fomos passar um fim-de-semana alongado à praia de Lunga. 200 quilómetros abaixo de Nampula. 100 quilómetros abaixo da Ilha de Moçambique. Logo depois do Monapo, já em plena picada, cheirou a queimado debaixo do banco de trás da carrinha VW variant. Parámos rápido e saímos. Já havia fogo debaixo do banco. A bateria estava a fazer curto-circuito e pegou fogo aos inúmeros papéis que que havia pelo chão. Conseguimos arrancar os bancos e apagar o fogo.

Após a reinstalação de todos os componentes reparamos que a bateria se tinha descarregado e o pneu suplente estava vazio. Voltar para trás. Qual quê! Seguir em frente. Mesmo para o meio da selva, para uma zona onde não havia luz, telefone, rádio…

Felizmente aqui era uma descida e foi fácil. Bastou ir andando engatado, o motor pegou e aí vamos nós.

Embrenhamo-nos numa zona mato e selva. 100 quilómetros em redor da praia de Lunga quase não mora ninguém. As picadas são de areia. Moram leões.

Ao aproximarmo-nos de um regato os bambus de um lado e de outro faziam um túnel, pelo qual tínhamos de passar. Os macacos pequenos, dependurados das canas eram às dezenas. Passamos muito devagar para que o carro não se fosse abaixo.

Finalmente a praia. Linda. Uma concha quase perfeita, que ligava ao mar por um canal estreito que tinha palmeiras de cada lado. Areia branca impecável. Águas límpidas. Alguém construíra uma cabana de colmo em plena areia. Os primeiros arbustos junto da areia tinham umas bagas de aspecto delicioso.

- Podem-se comer. Sabem a maçã. Por isso se chamam maçanicas.

Passaram a fazer parte da nossa dieta. Foi necessário ir apanhar lenha para fazer uma fogueira na praia. Para preparar a comida, para nos aquecermos da friagem da noite e sobretudo para afugentar os leões. Ouviam-se os seus uivos ao longe. E eles têm medo do fogo. Dormimos por ali. Uns dentro da cabana, outros em volta da fogueira enrolados em cobertores. De noite quem acordasse e visse o lume em baixo, tinha que acrescentar mais paus.

No domingo fomos ter com uma família que tinha assentado arraiais num conto da praia, há já muitos anos. Vivia da pesca e das hortas. Negociava com quem aparecesse. Porque não havendo ninguém por perto a localidade tinha posto de régulo e andavam sempre gentios por ali. Tinham um coberto com mesas e bancos que funcionava por vezes como restaurante. Possuíam um gerador.

Prepararam-nos um coelho à caçadora. Uma delícia em plena selva.

O pior foi preparar para regressar. O carro estava numa picada de areia, sem bateria e sem pneu suplente. Os 6 manos lá o empurraram para uma zona mais favorável e viemos embora.

Nos domingos de manhã toda a gente em Nampula passava pela feira de artesanato em pleno adro da Sé. Subia-se à torre, tiram-se fotos e observavam-se os trabalhos, sobretudo de pau-preto. Muitas bancas e uma variedade de trabalhos que me faziam passar horas a pensar como seria possível esculpir, moldar, fazer trabalhos de torno tão bonitos, deixar umas peças encaixadas noutras num abraço tão perfeito. E isto sem grandes ferramentas, numa madeira tão dura. E trabalhos de prata (ou imitação): pulseiras, argolas, cordões. E missangas? Muitas. E chifres de animais? Muitos. E conchas. Ainda por lá andei a comprar algumas coisas para meter no caixote que trouxe de regresso.

No meu último dia de anos em África foi jantar com um grupo de amigos a um restaurante bem afastado da cidade, em plena estrada para Nacala. A particularidade é que ele tinha várias cabanas espalhadas pela selva em redor. Redondas, uma mesa no meio, bancos corridos redondos em volta da mesa. Os tectos eram de colmo. A meio um candeeiro grande. Cada cabana permitia albergar uma dúzia de manos à volta dum petisco qualquer. O nosso voltou a ser coelho à caçador.

A meio da refeição alguém disse:

- Olhem para o tecto!

O tecto era de colmo e não sei se atraídos para luz, se pela frescura do local, nele passeavam vários lacraus de vários tamanhos. Grandes e pequenos. Alguns mesmo bem grandes. Os mais espantadiços levantaram-se e foram chamar o proprietário.

- Não tenham medo. Fazem parte da casa. Andam sempre por aí e também não saem dali. Se não se meterem com eles não fazem mal nenhum a ninguém

Certo é que muito boa gente passou o tempo foi a olhar para o chão.

- Os de cima não fazem mal. Mas se vem algum pelo chão?

No final de 1973 já se aproximava o fim da minha comissão. Comuniquei ao comandante da companhia a minha ansiedade em pensar substitui-me. O mesmo que Mafra me quis dar uma porrada por causa dos distúrbios motivados pela morte dos 4 cadetes. O mesmo que ficou admirado de me ver ali na cidade, sabendo que eu tinha ido para atirador e devia estar em zona de guerra. Disse-me que isso logo se via, mas que tinha gostado do meu trabalho ali. Que me ia passar um louvor na passagem à disponibilidade. Podia ser-me fosse útil na minha futura vida de civil. Descobri depois que era da praxe: todos os militares que passavam à disponibilidade recebiam louvores. A menos que tivessem cadastro. E passou. Quase meia página, publicado na Ordem de Serviço. Guardei uma cópia até há pouco tempo. Queria incluí-lo nestas minhas memórias. Nas limpezas que faço de vez em quando estive com ele na mão. Com medo de o perder guardei-o tão bem que não sei onde o pus. Se o encontrar, ainda o hei-de incluir aqui.

Quando se dá o 25 de Abril eu tinha viagem de regresso marcada para uns dias depois. Fiquei lixado: viagem adiada. Depois de muita pressão sobre o pessoal dos transportes lá marcaram a data do meu regresso para o dia 25 de Maio de 1974.

Chegou finalmente o dia em que ia partir de Nampula rumo a Lisboa. Tinha despachado tudo no caixote. Fiquei só com uma mala de mão. Já não veio ninguém para me substituir. Tinha começado a debandada. O sargento assumiu o lugar de fazer a liquidação dos serviços da secção de viaturas do QG. O meu condutor foi-me levar de jeep ao Aeroporto. Despediu-se com lágrimas:

- Leve-me consigo! Gostei muito se si.

Avião da DETA até à cidade da Beira. Fiquei alojado por uns dias num hotel com 15 andares. Nas deambulações que fiz pela cidade acabei de me encontrar com o pessoal da minha companhia inicial que já estava há algum tempo sediada na Beira, à espera pelo voo de regresso. Aconteceram algumas morte e muitos feridos. Quiseram dizer-me nomes. Já não me lembrava deles, mas não mostraram ressentimentos por os ter “abandonado” logo no início.

- É a vida…

Acabei por embarcar ainda primeiro que eles.

Passei horas desesperado na varanda do aeroporto da Beira esperando ver chegar o Boing 707 branco da Força Aérea. 7 horas até Luanda. Paragem logística no aeroporto para beber as primeiras sagres em 2 anos. Mais 12 horas até Lisboa. Grande parte da viagem feita de noite sobre o mar ao longo da costa a ver as luzes das cidades. Será Dakar? Será…

Chegada prevista para Lisboa às 3 da madrugada.

Mossuril.jpg

 Carrinha VW variant do meu amigo na picada para a Praia das Chocas e descanso no Mossuril.

Lunga1.jpg

Praia de Lunga: canoas rumo ao infinito...

Lunga2.jpg

Praia de Lunga: nascer do sol por de trás da cabana.

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Paria de Lunga: durmir na praia.

Pau preto1.jpg

Nampula: Feira de artesanato vista da torre da Sé. à direirta a Sé.

Pau preto2.jpg

Nampula: feira de artesanato.

Pau preto3.jpg

Nampula: Feira de artesanato - Obras de pau preto

 

Beira.jpg

Cidade da Beira: nunca tinha visto prédios tão altos.

Avião.jpg

Aeroporto da Beira: ei-lo a chegar, o Boing 707 branco que me ia levar a Lisboa...

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publicado às 12:05

Melancias na praia

por António Tavares, em 02.03.17

De Lisboa a Porto Amélia

Melancias na praia

A nossa companhia foi das primeiras privilegiadas a fazer a viagem para África num dos Boing 707 brancos da Força Aérea. E eram giros esses aviões. Decorados interiormente com imagens de África (gazelas e outros animais) nas paredes. Constou-se uma vez que os militares de uma companhia de comandos, apanhados pela adrenalina do regresso, trataram tão mal (rasgos e riscos) o interior de um dos aviões, que na paragem técnica em Luanda foram enviados novamente para o mato e ficaram em Angola mais uns largos meses.

Os aviões estavam preparados para levarem, cada um, uma companhia completa, cerca de 300 homens. A viagem de Lisboa a Luanda levou 12 horas e de Luanda à cidade da Beira levou mais umas 6 horas.

Fizemos escala de alguns dias na cidade da Beira onde aguardámos a ida para Porto Amélia nos aviões mais pequenos da DETA (companhia moçambicana).

Os oficiais milicianos eram recebidos na Beira por uma autêntica comissão de honra, que nas primeiras noites faziam um tirocínio pelos circuitos paralelos aos da comunicação oficial.

Eram outros oficiais milicianos mais antigos, que estavam colocados na cidade ou aí esperavam voo de regresso, talvez já imbuídos do espírito da revolução que veio a acontecer em 1974. Fomos levados a percorrer os bares da zona do porto, bares de má fama e não só.

Fomos levados a ver o célebre Mira-mortos. Um prédio de vários andares, largo, com um átrio no interior. Os vários apartamentos abriam-se internamente para uma varanda que percorria cada andar de um lado ao outro. Era habitado maioritariamente por prostitutas, cujo estatuto ia subindo consoante se subia na escala dos andares. Das negras nos primeiros, mulatas, indianas e sucessivamente até brancas nos andares superiores. E o nome advinha de o edifício estar paredes meias com o muro do cemitério.

Todos passavam por uma ensaboadela a ouvir o cancioneiro do Niassa e beber umas bazucas. Era uma autêntica lavagem ao cérebro. Percebi mais tarde que toda esta encenação não era gratuita. Era a estrutura clandestina a formatar a mente dos alferes checas.

A erva lá na picada

Pisam-na os guerrilheiros

O coração do soldado

Pisam-no os coronéis

E ajudam os machambeiros

O cancioneiro do Niassa foi gravado no início dos anos 70 por um grupo de milicianos com jeito para tocar viola e adaptar as músicas populares a canções revolucionárias. Entre eles João Maria Pinto e o seu irmão Manuel Carlos. Muitas vezes cantado em tertúlias, muitas vezes reproduzido em cassetes. Sempre quis ter uma cópia. Só em 1999 (25 anos do 25 de Abril e 25 anos da ADFA (Associação de Deficientes das Formas Armadas) foi possível a publicação de um CD com o nome de “Canções Proibidas”. A ADFA tinha feito em pedido o João Maria Pinto. Este conheceu Laurent Filipe (produtor), a Valentim de Carvalho disponibilizou os meios técnicos e o CD aí está.

Todos os milicianos tinham que o ouvir, na primeira tertúlia a que estivessem presentes, mal chegassem a terras moçambicanas.

Tudo o que reproduzi até este momento, relativamente ao Cancioneiro do Niassa, fi-lo reproduzindo diretamente da minha memória. Agora, que encontrei o CD que julgava perdido, vou citá-lo mais vezes.

Machambeiros eram os grandes latifundiários, cujo expoente máximo era o engº Jorge Jardim (patriarca da família Jardim – Cinha Jardim e companhia). Aliás havia um certo mal-estar desta gente contra os militares vindos da metrópole. À volta do Engº Jardim pululava um conjunto de empresários que até tinham relacionamentos com a Frelimo e tentavam que Salazar os autorizasse a promover uma autonomia limitada para Moçambique, sobe a sua égide.

Salazar nunca autorizou. E após a independência o sr engº Jardim refugiou-se no Malawi, a partir de onde moveu as suas influências no sentido de tomar o poder em Moçambique. O que nunca conseguiu.

A cidade da Beira era uma metrópole com muita vida. Ali desembocava o caminho-de-ferro da Beira que trazia as riquezas do interior de África (Rodésia), o carvão moçambicano retirado em Moatize em minas a céu aberto (ainda hoje) e o chá do Gurué. Foi onde vi pela primeira vez prédios com mais de 10 andares. A própria arquitetura era algo diferente e com linhas mais modernas. Veja-se o exemplo da estação do caminho-de-ferro ou o museu etnográfico.

Passados uns dias lá fomos nós de novo de avião até Porto Amélia, a cidade grande mais ao norte de Moçambique.

Acantonados os soldados, logo arranjamos companhia para passeios à noite até ao cais. Aqui a emoção era muito menor. No dia seguinte fomos até à praia. Espanto dos espantos. Havia melancias a crescer pela areia da praia fora. Com frutos e tudo. E podiam-se apanhar e comer. A explicação? Como a melancia é um fruto fresco era usual as pessoas levarem-nas para a praia e deitar os restos (sementes incluídas) na areia.

Passados quinze dias aí estavam as novas melancias prontas a comer.

Beira.jpg

Cidade da Beira: Museu etnogáfico, uma das ruas dos bares na zona do cais, estação ferroviária, cemitério (visto do cimo do prédio Mira-Mortos)

Mira Mortos.jpg

 Interior do prédio Mira-Mortes (Beira)

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