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O ninho das formigas e o tanque para lavar o cu

por António Tavares, em 09.10.17

O ninho das formigas e o tanque para lavar o cu

Arranjei todo o jardim e a horta. Deixámos em terra a zona para fazer a piscina. Era onde o Bruno brincava com os seus carrinhos miniatura. Sempre gostou muito de carros. Fazia uma estrada. Uma pista. Um parque de estacionamento. Depois levava-os, um a um, a percorrer aqueles caminhos todos. No fim ficava todo sujo. Não fazia mal.

O padrinho do Bruno construiu-lhe uma garagem em contraplacado. Portão de entrada, com dois pisos e rampa de acesso. Era um delírio. Deu para arrumar os carros todos.

- Oh pai… os carros não enchem a garagem. Tens que comprar mais.

E comprámos.

A dada altura decidimos construir a piscina. Pedimos orçamentos e pediam-nos 2 e 3 mil contos. Decidimos fazê-la nós próprios.

Contratamos o sr Festas da Achada e ele arranjou mais uns 2 ou três amigos. Nós íamos na sexta-feira e no sábado, mal o sol raiava lá começávamos nós a ouvir o carro de mão a chiar, estrada fora. Traziam enxadas e pás para escavar e o carro de mão para acarretar a terra. Foi tudo escavado à mão e a terra atirada para o caminho de trás. Felizmente como a terra era boa houve logo quem a quisesse e a levasse em tractores. Evitou-se termos de nos desfazer dela.

O ti Festas e os amigos gostavam de ter uma pinga para ir bebendo ao longo do dia. Comprávamos-lhes um garrafão de 5 litros numa adega do Sobreiro. Dava para o dia todo. Iam intercalando com água. Certa vez trouxemos um garrafão de um vinho melhor.

- Não pode trazer mais deste vinho. Com este nós vamo-nos abaixo mais depressa…

Aberto o buraco arranjámos um pedreiro que fazer as infra-estruturas em cimento e os muros e as escadas de acesso. Comprámos as máquinas em Lisboa. Contratámos com o canalizador Carlos Batalha da Achada para montar as máquinas. Comprámos em Sintra as pedras para o rebordo exterior e para o deck. Montar as pedras exteriores foi trabalho meu.

Faltava arranjar quem revestisse a piscina com os azulejos comprados por nós. Indicaram-nos o Maximino de Caeiros. Que era um rapaz jeitoso. Que só trabalhava em azulejos. Pedimos-lhe orçamento.

- Não posso dizer ao certo. Depende do trabalho que der. Mas deve ficar à volta de 27 contos.

Mandamos fazer. Quando lá chegamos andava a trabalhar com ele o padrinho, o tio, mais um amigo … diz a Fernanda:

- Não me digas que depois temos que pagar a estes todos…

Bem dito, bem feito. Ainda antes de acabar (faltava betumar os azulejos) pediu que lhe pagássemos.

- Sabe… também tenho que pagar a quem me veio ajudar!

Começou por pedir mais de 40 contos. E o trabalho por acabar. Demos-lhes 30 contos e dissemos que se fosse embora. Que não aparecesse mais. Acabei eu por betumar os azulejos, conforme fui capaz (mal). Daí em diante vinha de mota pôr-se à nossa porta à espera que lhe pagássemos.

Sem o saber o meu sogro, com medo que nos acontecesse algo de mal, foi a casa dele e pagou-lhe o que ele queria. Viemos a saber mais tarde que ele era exactamente um calão. Vivia de biscates e não fazia nada de jeito. Esteve emigrado e veio-se embora. Esteve como caseiro numa quinta em São Lourenço e correram com ele.

Trabalhamos muito naquele pedaço de terra que é nosso. Daí lhe ter tanto amor. Tenho lá enterradas muitas gotas de suor, algumas gotas de sangue a algumas lágrimas. Transportava as pedras e o cimento dentro de dois baldes presos com cordas a um pau que colocava nos ombros. Cheguei a tê-los feridos. Vínhamos de lá cansados, mas felizes.

O Sr Sequeira (vizinho de frente) dizia muitas vezes:

- Olhe que isto é um campo de férias! Não é um campo de concentração.

A Fernanda é bora rapariga. Sempre gostou da Casa da Praia. Mas sempre gostou mais de comprar tapetes de arraiolos e bibelots. Até nas casas de banho e nas paredes instalou arraiolos. Já sobre o jardim e a horta e a piscina tinha outra opinião. Chamava-lhes o ninho das formigas. E a piscina o tanque de lavar o cu. Nunca consegui que lá metesse um pé.

Mas eu até achava piada aos tapetes de arraiolos. Colaborava mesmo no desenho de alguns. Fazia-os em folhas de Excel. Temos lá na parede uma reprodução de um que faz parte de um museu (não me lembro qual) e que é tido como um dos mais antigos, para lá da idade média. Foi descoberto numas ruinas quaisquer, em muito mau estado. Foi recuperado e nós vimos a sua fotografia num jornal qualquer, num tamanho que não deveria ter mais de 5 x 5 cm.

Ampliei-o várias vezes através de fotocópias. Desenhei-lhe em cima uma malha de quadrados e depois compu-lo, ponto por ponto, numa folha Excel. Até as cores conseguimos manter.

Disse muitas vezes à Fernanda:

- Estás a construir um museu. Não uma casa de campo…

Arraiolos.jpg

É esta a reprodução do tapete de Arraiolos medieval. Foi encontrado em muito mau estado e foi restaurado. É tido como o mais antigo Arraiolos conhecido. Vimos a sua reprodução numa revista numa foto de 5x5 cm. Redesenhei-o à mão numa folha excel. Fizemos a sua reprodução.

Frades.jpg

A adega dos monges. Tapete de Arraiolos pendurado na parede.

Caça ao javali.jpg

 A caça ao javali. Outro tapete de Arraiolos na parede.

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publicado às 12:02

Não… tu és inegociável

por António Tavares, em 08.09.17

Não… tu és inegociável

Como não era político nem tinha padrinhos, sempre tentei que valorizassem o meu trabalho e me reconhecessem mérito por isso. Como era meu propósito não me demorar muito em cada emprego, sempre que me convidavam (e eu gostava do que ia fazer) mudava. Com isso era de facto reconhecido, mas quando se tratava de nomeações para cargos de decisão… nada.

Entrei para a Marconi, era esta uma empresa das mais bem cotadas no mercado. Ganhava 18 ordenados por ano. Recebia todos os prémios. Tinha a empresa participações em cabos submarinos e satélites pelo mundo inteiro. Tinha na altura cerca 3.200 empregados. Quando me reformei, já com a Marconi integrada na PT, tinha apenas 220 empregados.

Por vezes quando mudava de local de trabalho a Fernanda aparecia com o Bruno e o Tiago a esperar-me, no segundo ou terceiro dia, à porta do trabalho. Ela pensava que eu não percebia. Era para dizer às minhas colegas: tenham juízo, ele é casado e tem 2 filhos. Mas nunca me preocupei. Eu até gostava de ver os meus filhos, lindos e bem vestidos, vir esperar o pai à saída do emprego.

Trabalhava em Organização na Marconi e ao lado trabalhava em informática um engenheiro electrotécnico com formação em gestão. Ele estava a desenvolver uma aplicação em Lotus 123 para a Direcção de Pessoal fazer os orçamentos dos custos com pessoal. Como ele também tinha formação em gestão (e amigos) começou a ser convidado para acompanhar a administração em viagens de negócios pelo mundo. Como a compra da Vivo no Brasil. Para onde acabou de ir trabalhar. Como ninguém sabia trabalhar com o Lotus 123 lá fiquei eu a gerir e ampliar essa aplicação de gestão de pessoal. Quando dou por mim quem geria essa informação, na Direcção de Pessoal era a doutora que fora preterida na minha entrada para a empresa. Eu entrei porque fiquei em primeiro. Ela entrou depois para a Direcção de Pessoal porque arranjou lá contactos. Trabalhava lá pelo menos uma irmã dela. Fiquei a fazer a manutenção dessa aplicação até ao fim dos meus dias na empresa. Ela fazia a “manutenção” da informação. E isso é que dá dividendos.

Trabalhava na altura no controlo de gestão um doutor também com nome sonante e que também queria altos voos. Desenvolveu uma aplicação em DBase III para o controlo de gestão. A directora veio ter comigo perguntando se não queria ocupar o lugar dele, porque ele ia sair. Disse que sim e fui. Mantive até ao fim da empresa esta aplicação. Alterei-a, ampliei-a, desenvolvi mesmo outras funcionalidades. A directora dizia mesmo: era disto que eu estava à espera e a precisar.

Sempre fui muito organizado e arrumado. Nunca tinha papéis em cima da secretária. O que era para tratar, tratava. O que era para arrumar, arrumava. Mesmo a informação nos meus PC´s esteve sempre também tão arrumada que os PC´s nunca se enchiam de “lixo”. Havia pessoas (como a directora) que trocavam de PC´s todos os anos. Os meus duravam 3 ou 4 anos. Por fim não permiti que me trocassem o PC. Porque os novos já não corriam programas em MS.DOS como o DBIII. Ainda tentei transferir os programas para outras bases de dados como o DBIV ou Acess. Mas nunca tive apoio.

Entretanto o lugar da minha chefia direta ficou vago. Tentei junto da directora que me promovesse. Até gostava de mim. Até tinha elogiado o meu trabalho. Qual quê! Quem veio ocupar o cargo vindo directamente de fora foi o marido da doutora para quem fazia os orçamentos de pessoal. Politiquices e amizades.

Na secção de Contabilidade Analítica trabalhava outro doutor que sonhava com voos tão altos que chegou mesmo a Secretário de Estado. Na altura desenvolveu um interface entre a contabilidade geral e analítica. Mas para ele era pouco. Quem ficou a manter (e a desenvolver) a aplicação? Eu.

Como tinha isenção de horário trabalhava muitas vezes até tarde. A Fernanda afinava. Tinha que ser. Cheguei a vir de férias e mesmo com febre ir, no fim–de-semana, correr as rotinas do controlo de gestão. Uma vez estive com gripe em casa e a secretária da directora trouxe-me a casa os dados da contabilidade para eu correr as rotinas no meu PC de casa. E voltou depois para levar os resultados.

Nesta altura estavam-se já a negociar as rescisões amigáveis, tendentes à redução de pessoal, para a integração na PT. Havia quem recebesse 40 mil contos para se vir embora. Eu pus logo o dedo no ar. Também me quero ir embora.

- Não. Tu és inegociável. Precisamos cá de ti.

Conjuntamente com o administrador da área de pessoal e a minha directora, desenvolvi uma aplicação em Excel para analisar, empregado e empregado, quanto custaria à empresa manter cada um até à idade da reforma. Servia para negociar as indemnizações. Eu, por exemplo, custaria à empresa 150 mil contos até me reformar.

- A mim basta que me dêem só 100 mil contos, que me vou já embora …

Tive que ficar até ao fim.

Certa noite, tinha, sentados a meu lado, a directora e o administrador de pessoal. A Fernanda, com o jantar na mesa (e os pais dela em casa para jantar), ligava-me vezes sem conta.

- Mais meia hora…

Eles queriam avançar com a análise dos valores a pagar pelas rescisões dos empregados. Insistia que ficasse mais um pouco. A dada altura levantei-me e disse:

- Continuem vocês. Eu vou-me embora.

Nunca mais recebi prémios de avaliação.

Eu fazia pressão para sair da Marconi reformado, por várias razões: tinha 52 anos, 32 anos de descontos e a Marconi tinha uma Caixa de Previdência própria. Para além da reforma calculada pelas regras oficiais, davam um adicional de mais 30%, garantido até ao fim da vida.

Para além disso, tive conhecimento de colegas que já tinham seguido para a PT e nem cadeira tinham para se sentar. Eu não queria isso.

Já a Marconi tinha acabado quando fiz barulho e me levaram ao médico da Caixa de Previdência. Fiz um RX à coluna e diz-me ele:

- Você tem aqui já razões suficientes para se reformar.

Reformei-me e ainda me deram algum dinheiro como compensação.

Com a integração da Marconi na PT também as caixas de previdência das várias empresas de grupo PT foram integradas. Mais tarde com a crise de 2011/2014 o estado precisava de dinheiro e integrou todas estas caixas na Previdência Social. Passei a ser reformado pago pelo estado. Deixei, até hoje, (2017) de ter aumentos. Sofri mesmo os cortes impostos a todas as reformas que passavam dos valores mínimos.

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publicado às 15:25


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