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Primeiro Natal da Maria Clara

por António Tavares, em 27.12.17

Primeiro Natal da Maria Clara

Este foi o teu primeiro Natal no meio de nós. Acabaste de fazer 11 meses. Estiveste como sempre risonha, bem-disposta, sem chorar nem fazer birras.

Na Casa da Paria estavas tu e os teus pais. Os teus avós de Lisboa e o teu avô da Guarda. Os teus tios de Lisboa e o Torps. O teu pai fez qualquer brincadeira contigo e com o Torps que ele não gostou muito. Ainda te ladrou. Mas sabes, como tu agora és o centro das atenções e ele é um ciumento do caraças, não gostou muito da brincadeira. Mas deixa que isso passa-lhe. Quando tu andares e puderes brincar com ele vais ver que ele vai gostar de ti.

O teu avô faz pela 40ª vez as filhoses de Natal.

Ninguém me ensinou a fazê-las. Via a minha mãe a fazê-las e fixei na memória. Quando me casei, em 1975, comecei a faze-las todos os anos. Neste, ainda por cima com a tua presença, não podia fugir à regra.

O teu tio Tiago pediu-me que não me esquecesse de escrever a receita. Há muita maneira de fazer filhoses. Eu faço assim:

Ingredientes:

2 Quilos de farinha 65

2 Saquetas de fermento do padeiro

10 Decilitros de leite morno

Raspa e sumo de uma laranja

Meio quilo de abóbora cozida e esmagada

1 Cálice generoso de vinho do porto

1 Dúzia de ovos

Confeção:

Deita-se num alguidar grande 1 quilo de farinha. Abre-se um buraco no meio onde se deitam os ingredientes. Primeiro o fermento e o leite morno para o desfazer. Vai-se mexendo com uma mão. Depois deita-se o sumo e a raspa da laranja, a abóbora e o vinho do porto. Por fim os ovos inteiros, um a um. Vai-se mexendo sempre.

Num alguidar pequeno ao lado deita-se o outro quilo da farinha. Enquanto com uma mão se vai mexendo e enrolando a mistura, com a outra mão vai-se adicionando farinha até todo o conjunto formar uma bola que se consiga separar da mão e das paredes do alguidar. Para facilitar vai-se afastando a massa das paredes e espalhando a farinha nelas e no chão do alguidar.

Logo que faça uma bola é preciso amassá-la com as duas mãos, batendo e enrolando e virando, durante longos, longos minutos. Vai-se pondo farinha nas mãos e à volta para não pegar.

Quando a bola estiver homogénea, espalha-se farinha nas paredes e no chão do alguidar e deixa-se a bola a repousar no fundo. Tapa-se o alguidar com um pano e com casacos de malha. Deixa-se a levedar num sítio quente (não muito quente) sem nunca as destapar, durante 3 ou 4 horas.

Coloca-se uma frigideira funda o lume com óleo novo. Coloca-se um pouco de óleo numa chávena. Com os dedos molhados em óleo retira-se um pedaço de massa que forme uma bola com cerca de 4 a 5 centímetros. Vai-se esticando entre os dedos ou em cima de um prato, ou de uma tábua, untados com óleo, de modo a que fique mais grossa em redor a mais fina no meio. Deita-se no óleo já bem quente. Vai-se virando até que fiquem loirinhas dos dois lados.

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publicado às 10:53

O uísque que era álcool e tintura de iodo

por António Tavares, em 07.06.17

O uísque que era álcool e tintura de iodo

Morava em Nampula num bairro maioritariamente habitado por indianos. Ismaelitas. Pessoas calmas, ligados ao comércio. A maioria das suas casas era de telhado de zinco. Mesmo tendo dinheiro nunca foram pessoas de grande ostentação.

O prédio era alugado pelo exército para albergar oficiais milicianos. 4 flats (apartamentos) com 3 quartos cada. Em cada quarto dormiam 2 alferes. Um jardim na frente com papaias. Bastava ir à janela do 1º andar para colher papaias. Nas traseiras havia um quintal com 4 garagens. Era aí que os mainatos (pretos que tomavam conta da roupa e da limpeza do apartamento) lavavam a nossa roupa.

A água da torneira era tão barrenta que estávamos muitas vezes à espera que chovesse para irmos tomar banho na rua debaixo da bica que caía do terraço. O telhado do prédio era um terraço. E normalmente a época das chuvas coincidia com a altura de mais calor. Lá vínhamos nós de calções, sabão e toalha na mão, lavarmo-nos à chuva na bica que caía do terraço.

Era nestes apartamentos que nos reuníamos para as nossas “festas privadas”. Ver um filme “caliente” em super 8. Havia quem tivesse a máquina e quem arranjasse clandestinamente um filme vindo da África do Sul ou da Rodésia. Comer sardinhas ou castanhas. Nas alturas próprias sempre lá chegavam. Ou mesmo para ouvir o cancioneiro do Niassa.

O exército importava uísque para vender nos meios militares a preços isentos de impostos. Os oficiais tinham direito a comprar uma garrafa de uísque novo por mês. Para os uísques especiais (velhos ou de malte) havia lista de espera. Eu consegui, ao fim de muito tempo comprar uma garrafa de Old Parr. Trouxe-a e guardei-a muitos anos. Quando nasceu o Bruno fiz uma promessa de só a abrir quando ele casasse.

Como quem casou primeiro foi o Tiago, levei-a para os Açores para abrir na véspera do casamento dele. Não foi oportuno, na altura. Voltou a garrafa para Lisboa. Quando o Bruno casou lá foi a garrafa para a Guarda. E abriu-se, finalmente, ao fim de 40 anos. Não prestava. Tinha perdido toda a força. Era água mal cheirosa. Talvez por estar já mal rolhada.

O meu colega de quarto (alferes Oliveira de V. F de Xira) veio-se embora mais cedo. Devido ao clima quente e húmido eram frequentes as micoses nas virilhas. Os enfermeiros preparavam-nos uma mistura de álcool e tintura de iodo para esfregarmos. O Oliveira tinha uma garrafa com essa mistela na mesa-de-cabeceira.

Quando algum alferes se vinha embora era usual dar ao mainato que tratava das suas roupas, aquilo que já não prestava, nem queriam trazer. Isso aconteceu com o Oliveira. O seu mainato veio receber as coisas que ele não queria trazer e diz-lhe:

- Sr alferes, posso ficar com o resto do uísque?

- Qual uísque?

- Aquele daquela garrafa!

- Mas aquilo não é uísque. É remédio.

- Não faz mal. Fico com ele na mesma. Sabe, eu de vez em quando bebia um gole pequenino…

- Por isso é que eu via o líquido a desaparecer…

E levou mesmo a garrafa com o resto do álcool e da tintura de iodo…

O clima em Nampula era extraordinariamente quente e húmido. As árvores de fruto (bananas e laranjas) davam frutos 2 vezes por ano. Nós fazíamos muitas saladas, sobretudo de tomate. Deitávamos os restos para o quintal. Passados 3 semanas já podíamos colher novos tomates.

O governo tinha um programa que financiava os militares que quisessem fixar-se na zona, após passarem à disponibilidade. Cedia terrenos a custo quase zero. Financiava a compra de máquinas agrícolas.

Era muito conceituado o algodão produzido naquele zona porque a apanha era manual. Assim não se partiam as fibras. Ao contrário da apanha mecanizada praticada em produções largamente extensivas, como o Egito e os EUA.

Era muito comentado o caso do Furriel que aproveitou essas benesses. Arroteou um terreno imenso. Endividou-se. Plantou algodão. A primeira colheita foi ao fim de 2 anos. Na terceira colheita pagou todas as dívidas e veio-se embora com um bom pé-de-meia.

A riqueza de Moçambique não se ficava pela agricultura fácil. Era famoso o chá do Gurué e as minas de carvão a céu aberto de Moatize. Bem como o gás natural de Inhambane e Cabo Delgado. E o parque natural da Gorongosa? E a Ilha de Moçambique? E o turismo? Quirimbas (Ibo) e Bazaruto?

Por isto tudo me faz muita confusão ver hoje imagens frequentes de Moçambique com seca, fome e tanta pobreza. Eu vi um país rico.

Portugal nunca soube tirar partido das riquezas das colónias. Sempre fomos uns mãos rotas. Fomos donos do mundo. Passaram-nos pelas mãos fortunas imensas que deixámos fugir por entre os dedos para a Flandres e para Inglaterra. Ficamos com as pedras dos conventos, mosteiros, igrejas e palácios (Mafra!!!), muitos dos quais hoje em ruínas e que nem sequer temos dinheiro para mandar reconstruir.

Por isso se alugam esses edifícios históricos para os mais variados fins, com o intuito de se arrecadar algum dinheiro que ajude a sua manutenção. Como aconteceu recentemente com o Convento de Cristo em Tomar. Mil pessoas (incluindo figurantes) para rodar um filme. Cortam-se as árvores do claustro. O canteiro das árvores (que antes tinha flores) enche-se de predas brancas roladas. Acende-se uma fogueira no meio do claustro com 20 metros de altura. Para isso carregam-se para lá 20 botijas de gás das grandes. O calor foi tal que pedras com 300 anos partiram. Telhas saltaram e partiram-se.

- Mas estavam lá os bombeiros de prevenção.

- Quantos?

- 2

- E tinham material de prevenção?

- Não. Estavam só eles. Se fosse preciso mandavam vir.

- E se as 20 botijas explodissem?

Possivelmente o claustro iria pelos ares.

Sempre fomos um país de extremos. Aquando do eclodir da guerrilha em Moçambique (1961) fomos capazes de levar 3 ou 4 lanchas da Marinha para o Lago Niassa. Este é um lago enorme (um autêntico mar) que limita a fronteira norte/oeste de Moçambique. Foram carregadas em vagões do caminho-de-ferro em Nacala. A viagem obrigou a desmatamentos e alargamentos. Os últimos quilómetros foram feitos em cima de camiões preparados para o efeito. Foram abertas largas picadas. Foram construídas pontes. Mas ao fim de 2 anos as lanchas chegaram ao lago Niassa para cumprir a sua missão.

O tio dos meus pais era dono de extensas plantações, salinas, fábricas de pão, fábricas de óleo de amendoim e de castanhas de cajú. Até era respeitado pelos seus empregados. Construiu mesmo para eles um bairro ao lado das fábricas de Monapo. Aquando da independência do país foi contactado por funcionários do novo governo.

- Sabe, agora isto é tudo do estado. Não temos nada contra si. O pessoal até parece que gosta de si. Queremos fazer-lhe uma proposta: você fica cá a gerir as fábricas e passa a receber um ordenado do estado.

Ainda tentou e ficou uns meses. Mas a confusão instalada levou a abandonar tudo de vez…

Casa indianos.jpg

Casa de indianos

Casa Nampula.jpg

O andar onde morava: vista para a frente e para trás

Cama.jpg

Aqui dormi perto de dois anos

Castanhas.jpg

Em dia de São Martinho

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publicado às 17:05


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