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Papa Paulo VI e o pijama sujo

por António Tavares, em 11.04.17

Papa Paulo VI e o pijama sujo

Enquanto estava no seminário de Fátima tive conhecimento que o Mário tinha seguido as minhas pisadas e tinha ido para o seminário de Poiares. Mas o internamento no seminário também tinha os seus custos. Não fazia mal: a D Natividade ofereceu-se para ajudar também nas despesas do Mário:

- Já que sou madrinha de um futuro padre, posso ser madrinha de dois.

Mas a sua irrequietude levou-o a deixar o seminário cedo. Conseguiu que o pai o deixasse ir estudar para o Liceu de Castelo Branco. Foi morar para casa de pessoas da família da minha mãe.

A vida no seminário de Fátima deixou-me poucas recordações, mesmo tendo feito lá a transição da juventude (15 ao 17 anos). Cedo me apercebi que não era aquilo que queria. Apercebi-me que os estudos do seminário não eram reconhecidos oficialmente. Logo se me visse embora sem mais nem menos, tinha perdido todo o tempo que lá tinha passado.

Solução? Aguentar até fazer o 2º ciclo (antigo 5º ano) e convencer os padres a deixarem-me ir a Leiria fazer os exames oficiais no Liceu. Eles nunca foram pessoas de cortar os pés a ninguém e tal como eu havia mais rapazes nas mesmas condições.

Os padres levavam-nos em grupos. Lembro-me que fui muitas vezes num DKW de 2 tempos.

Mas não podíamos fazer os exames do 2º ciclo sem fazer antes os do 1º ciclo. Como só me lembrei disto enquanto decorriam as aulas do 5º ano, se fizesse os exames de cada ciclo em anos separados, perdia um ano.

Solução? Pedir oficialmente para fazer os exames dos 2 ciclos no mesmo ano. Fizemos em Junho os exames do 1º ciclo e em Julho os do 2º ciclo, sendo que as notas deste ficavam dependentes da aprovação do primeiro.

1º ciclo: passei a todas as disciplinas. 2º ciclo: negativa a matemática mas aprovação na oral. Já tinha o passaporte para me ir embora.

Mas não é que a vida no seminário fosse má. Não havia pressões nem abusos. Apenas a rotina. E passeava-se muito.

De carreira fomos à Nazaré, Batalha, Alcobaça, Tocha e Mira, Lousã, Aveiro, Tomar, Figueira da Foz, etc. A pé percorremos todas as terras das redondezas. Costumávamos ir para a Serra de Aires passar as tardes mornas de verão. Havia por lá uns redis de cabras abandonados. Pequenas zonas de pinheiros muradas onde os pastores, noutros tempos, guardavam as ovelhas e as cabras.

Por ali ficávamos a ler, conversar e dormitar. Cada um escolhia um canto e acomodava-o à sua moda. Lembro-me de ter feito um muro num canto. Revesti o chão com ervas e palhas, fiz um banco. Era a minha casa. Sempre que lá voltávamos íamos acrescentando alguma coisa.

Havia na zona um buraco no chão entre 2 penedos para onde atirávamos pedras pequenas e ouvíamos elas rolarem durante largos minutos. Era uma das famosas grutas da Serra de Aire. Estas foram depois abertas ao público.

Havia muitas na zona. E um padre mais aventureiro convidou quem quisesse para ir com ele fazer uma exploração de espeleologia. Eu fui. A gruta não tinha acesso embora já tivesse sido explorada. Descia-se um primeiro poço por entre pedras escorregadias, passava-se de lado por uma zona estreita entre pedras, descia-se um segundo poço através de cordas. Daqui não passei. É que o passo seguinte era passar rastejando por uma abertura no fundo do poço, com apenas 30 ou 40 centímetro de altura. Achei que para mim já chegava.

Fomos outra vez a pé até à lagoa de Minde. É uma lagoa que enche com as chuvas de Inverno e alaga campos agrícolas, mas à medida que vem a primavera e o verão a água vai recuando sendo engolida pela serra para sair nas nascentes do rio Alviela. À medida que a água ia recuando ficavam prados de erva fofa onde íamos correr e jogar à bola. Reparamos que andava um coelho aos ziguezagues por meio das videiras. Corremos a envolve-lo e ele deixou-se apanhar. Quando o soltamos ele correu sempre a direito até chocar com um muro de pedras. Percebemos que estava cego. A parvoíce deu-nos para isso: voltar a apanhá-lo e soltá-lo virado para o muro. Tanto bateu com a cabeça que morreu.

Em grupos de 25 de cada vez fomos levados a subir a torre da basílica. Estive por 3 vezes dentro da coroa que encima a torre.

Os jogos eram uma forma de libertarmos tensões e criar empatias. Tínhamos campos de futebol, andebol e basquete. Formávamos equipas e torneios. Fizemos mesmo um torneio olímpico com várias provas de atletismo. E os melhores recebiam medalhas e subiam ao pódio. Fazíamos torneios de futebol contra equipas de outros seminários.

Mesmo sem questões de disciplina e de os padres serem acessíveis e conversadores, eu nunca senti neles amigos para poder confiar problemas de auto-estima ou de personalidade. Tive que ser eu mesmo a moldar-me a mim próprio. Sozinho.

Lembro-me uma vez de acordar todo borracho. Tinha o pijama todo sujo. Sem saber o que fazer levantei-me mais cedo sem fazer barulho, fui à casa de banho, limpei-me e tentei limpar as calças do pijama. Não consegui. Enrolei-o bem enrolado, subi as escadas do sótão e fui metê-lo num canto muito escondido mesmo junto das telhas. Lá ficou muito tempo.

Assisti em 1967 à visita do papa Paulo VI. Tal como em todos os dias 13 de Maio, também nesse fomos todos dormir para o sótão, em cima de colchões de espuma espalhados pelo chão. As nossas camaratas eram alugadas para os peregrinos dormir.

Desta vez lembrei-me das calças do pijama. Lá estavam elas amarrotadas no canto. E duras de tão secas estavam. Levei-as e consegui limpá-las porque a porcaria estava tão seca que caiu.

Calvário Hungaro.jpg

Em Fátima no terraço do Cálvário Hungaro, construido nos anos 60 por católicos fugidos da Hungria depois da invasão comunista da URSS de 1956. Eu, como sempre, no ponto mais alto.

Fátima.jpg

O grupo de colegas de turma, num dos páteos do seminário de Fátima.

Nazaré.jpg

Num dos passeios ao Sítio da Nazaré.

Tocha.jpg

Na lagoa de Tocha. Eu lá em cima.

São Jorge.jpg

Num passeio em São Jorge - campo da batalha de Aljubarrota

Torneio Olimpico.jpg

A minha equipa no Torneio Olímpico. Devemos ter ganho, dada a dimensão do guarda-redes.

Lá atrás o palanque das medalhas.

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publicado às 09:51

Inspecção para a tropa

por António Tavares, em 07.04.17

Inspecção militar

Estava eu já em Lisboa a trabalhar quando o patrão me pediu para entregar o certificado de habilitações do liceu, para poder tirar a cédula de Ajudante de Despachante. Não tinha. Tinha feito os exames no liceu de Leiria mas nunca me tinha passado pela cabeça pedir o certificado.

Nesse ano de 1968 (ano da minha maioridade – 18 anos) tinha arranjado o primeiro emprego e a minha mãe tinha dado o meu nome para a tropa.

Tive que pedir um dia no trabalho para me deslocar a Leiria para pedir o certificado do 5º ano. Apanhei o comboio da linha do Oeste na estação do Rossio e aí vou eu. Cheguei a Leiria já passava das 11 horas. Entre descobrir como chegar ao liceu, andar a pé e apanhar a carreira, cheguei mesmo a tempo antes de fechar para o almoço.

Entreguei o requerimento, paguei e dizem-me assim:

- Agora venha cá daqui a 8 dias buscar o certificado.

Passei-me. Fiz uma birra daquelas. Exigi falar com o director. Recusei-me a abandonar as instalações.

- Oiçam: peço um dia no trabalho em Lisboa, chego aqui a estas horas e ainda me exigem que tenha que pedir novo dia de folga para a semana que vem para cá vir buscar o certificado? Ainda por cima eu sem ele não posso trabalhar porque não me dão a cédula profissional! Não saio daqui  sem levar o certificado.

Sentei-me nas escadas. Quando o director ia a sair para almoçar disse-me:

- Vá lá almoçar e passe às 3 horas para buscar o certificado.

Vitória! Mesmo assim foi à justa que apanhei o último comboio para Lisboa.

Dois anos depois fui chamado para a inspecção militar. Lá tive que pedir um novo dia de folga para ir à inspecção em Abrantes.

Lembro-me dos meus tempos de primária quando os mancebos chegavam a Cardigos em grupos vindos da inspecção militar: os que ficavam apurados compravam um foguete e lançavam-no na praça pública. Toda a gente tinha que ficar a saber da sua saúde e vigor físico. Mesmo sabendo que era a porta aberta para ir parar com os costadas à guerra de África. Os que ficavam excluídos vinham tristes e acabrunhados. Triste ironia.

No meu caso fui sozinho de comboio. Claro que fiquei apurado e só me ficou a recordação do almoço numa tasca do Rossio ao Sul do Tejo: peixinhos do rio fritos com arroz.

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publicado às 10:18


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