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A Casa da Praia

por António Tavares, em 04.09.17

A Casa da Praia

Casámos em Maio de 1975. Era para ser em Agosto mas, uma vez em pleno PREC, foi imposto no escritório que as férias fossem escolhidas por sorteio e entre Maio e Outubro, a mim calhou-me Maio. Não faz mal. Disse o Sr Gervásio (pai da Fernanda). Casam em Maio. Lua-de-mel no Algarve.

A Fernanda trazia por dentro do fémur que partira em Janeiro de 1974 um ferro que tinha sido colocado com cerca de 1 cm de fora para poder ser retirado facilmente. Isso fazia com que muitas vezes um pequeno gesto impensado fizesse um hematoma enorme que obrigava a sucessivas aplicações de hirudoid. Cedo manifestou intenção de engravidar porque queria ter um filho cedo. Opus-me enquanto não retirasse o ferro. Foi a única maneira de a convencer. Tirou-o na CUF.

E assim apareceu o Bruno…

No ano seguinte (197) foi abolida, no escritório, a regra das férias por sorteio. Passou a ser por escolha. Quem escolheu primeiro foram aqueles a quem, no ano anterior, tinha calhado Maio e Outubro. Escolhi Agosto. E como a Ericeira era o nosso destino normal de fim-de-semana, lá fomos nós alugar uma casa na Achada para todo o mês de Agosto.

Não havia televisão, nem mesmo rádio. Só formigas. A Fernanda estava grávida e antes de entrar em casa eu tinha que ir varrer as formigas. Senão era vómito pela certa.

Ia-mos à praia todos os dias. Bastava chegar ao início da rampa e lá vinham os vómitos.

A 200 metros (no Sobreiro) tinha a família Machado e a Maria Ilda uma casa alugada para férias e fins-de-semana. O Manuel Machado fora empregado do meu sogro e acabaram por criar uma empatia entre as famílias que se manteve até à morte dele e se mantém ainda hoje com a relação de amizade entre a sua filha Dr Manuela (médica) e a Fernanda. Nesse mês de Agosto ele ficou lá sozinho no Sobreiro e todos os dias aparecia à porta de casa à hora combinada com a toalha às costas para ir connosco para a praia.

Frequentávamos as festas e romarias locais e aos fins-de-semana lá aparecia o Sr Gervásio e a D Palmira, no seu Ford Cortina.

O Bruno nasceu em 1977. Nesse ano e dois seguintes passamos a alugar casa (normalmente em Setembro) já dentro da vila da Ericeira.

Em 1979 foi resolvido, em tribunal, o diferendo entre o Sr Gervásio e a seguradora que representava a condutora que atropelara a Fernanda em Janeiro de 1974. A condutora não se deu como culpada, mas o tribunal obrigou a seguradora a pagar 500 contos.

Estávamos de férias na Ericeira. Tínhamos alugado a casa do pregoeiro da lota do peixe. Ele tinha-nos prometido que se quiséssemos peixe fresco bastava pedir-lhe de véspera. Ainda chegamos a ir à lota arrematar uma “teca” de salmonetes. Uns muito grandes, outros muito pequenos. A falta de familiaridade com a técnica de leilão levou-nos a ficar com eles por um preço muito superior ao que estavam à venda no dia seguinte na praça.

Nesse ano, com os 500 contos na mão, lembramo-nos de vir a Lisboa trocar de carro. Os avós ficaram com o Bruno na Ericeira. Tinha saído na altura um novo modelo Ford Cortina e vínhamos para comprar um. Não havia a cor que queríamos. Deixamos um encomendado. Ainda bem que nunca chegamos a comprá-lo, porque o carro teve tão pouco sucesso que desapareceu das ruas em menos de 5 anos.

Fomos então comprar um carro para o Bruno à Quermesse de Paris, nos Restauradores. A pedais. Verde, com luzes e buzina. Foi um sucesso. O Bruno percorria o Largo do Jogo da Bola na Ericeira a apitar. Todos os garotos queriam ver, mexer, andar… Habituou-se tão bem a ele que, já na casa de Odivelas, ele saía da varanda de trás e ia até à varanda da frente, pela cozinha, átrio e sala, sem tocar num móvel. Foi aí que aprendeu a conduzir.

Mas como não trouxemos um carro novo o senhor meu sogro disse-nos:

- Se desistirem de trocar de carro e quiserem fazer uma casa, eu ofereço-vos o terreno.

Dito e feito. Fomos procurar um terreno. No que restou das férias e nos meses seguintes percorremos todos os caminhos e becos à procura da melhor localização, perto da Ericeira. Eu dizia para a Fernanda:

- Compramos um pinhal apenas para termos um espaço nosso para jogar à bola com o Bruno. Pomos rede à volta e um dia se pudermos fazemos uma casa de madeira…

- Assim não, tem que ser um terreno legalizado e urbanizado. Sei lá se depois a câmara autoriza algum construção.

Assim dizia o meu sogro.

Acabamos por comprar o lote onde temos ainda a Casa da Praia. A 200$00 o metro quadrado, 500 metros. 100 contos oferecidos pelo avô Gervásio. Metemo-nos a construir a casa com os 500 contos recebidos do seguro.

Mandei vir de França livros de plantas de casas. Comecei eu a desenhar uma. Como não podia assinar projectos levei os meus planos a um desenhador oficial que os entregou na Câmara e os fez aprovar.

Passo seguinte: encontrar um construtor. As regras eram estas: para fazer a casa e os muros em volta o construtor dava toda a mão-de-obra e todo o material, areia, cimento, ferro, madeiras, tintas, etc. Nós dávamos todos os acabamentos, loiças, azulejos, etc.

Tivemos orçamentos de até 3.500 contos.

Escolhemos o sr Carlos que nos foi indicado pelo desenhador. 1.500 contos. Estava em início de carreira de construtor, nós quisemos aproveitar. Mesmo com um caderno de encargos redigido ao pormenor, aceite e assinado, correu muita coisa mal.

Começou porque nos planos estava que a garagem deveria ficar enterrada a toda a dimensão da casa.

Veio dizer que o solo era demasiado duro para a máquina que ele tinha. Que precisava de alugar uma de rastos e isso era muito mais caro.

- Alugue lá essa máquina que nós pagamos a diferença.

Disse o meu sogro.

O desenhador era também o responsável, perante a Câmara, pela fiscalização da obra. Certa vez liga-nos o construtor:

- Olhe que esteve cá o desenhador/fiscal que esteve a ver o ferro que eu pus nas vigas e não aceitou. Em contei com verguinhas de 11 e ele exige de 15, que parece que é o que está nos planos. Mas eu não contei com isso.

- Coloque que nós pagamos a diferença…

Para evitar a humidade no chão da garagem tinha escrito no caderno de encargos que chão deveria ser rebaixado cerca de meio metro e feito um enrocamento com pedras e gravilha por cima. Como não podia fiscalizar as obras durante a semana, o meu sogro metia-se no carro e aparecia lá frequentemente. Descobriu que para encher o chão estava a meter na betoneira, 2 pás de terra 1 pá de areia e outra de cimento. Por isso é que, antes de colocarmos os mosaicos, cada vez que varríamos a garagem se levantava uma nuvem dó.

Tínhamos acordado que o terreno, que era inclinado, deveria ser nivelado o mais possível. Para isso o muro de trás deveria ser levantado até à altura necessária para conter as terras. Quando dei pelo muro já feito obriguei-o a subi-lo mais um bocado. Que não estava nos planos, dele, que já estava alto o suficiente.

- Suba que nós pagamos…

Compramos materiais de acabamento de primeira categoria. Azulejos estilo século XVII feitos à mão na Fábrica de Sant’ana. Custou cada um 150 escudos, no tempo em que um azulejo de construção custava 11 escudos.

- Que porcaria de azulejos que compraram. Cada um de seu tamanho. São muito irregulares. Dão muito mais trabalho…

Dissemos-lhe que os azulejos da casa banho da garagem não podiam ser molhados antes de serem colocados. Chegamos lá um dia e eles tinham o vidrado todo estalado. Tinham sido imersos em água.

- Olhe, estes eu não lhe trago outros e você vai tirá-los e vai à procura de outros iguais…

Pegou numa picareta e pôs-se a parti-los todos…

Entrámos na sala e verificamos que metade tinha a tijoleira bem posta. A outra metade estava aos altos e baixos.

- Há … sabe … aquela parte foi posta pelo meu empregado, esta parte foi posta pelo meu padrinho…

- Não quero saber. Eu posso trazer mais tijoleiras, mas você vai arrancar esta parte toda e vai colocar de novo.

Depois disto tudo e depois de receber o combinado ainda queria ir medir o muro de trás porque estava mais alto que o previsto. Que não tinha ganhado nada com aquela obra. Que mal tirara para o ordenado. Queria mais dinheiro.

- Eu vou ter com o seu sogro à feira da Malveira…

- Então vá…

Ficámos por aqui.

Nome para a casa? Vamos chamar-lhe Casa da Praia. Porque, estando em Lisboa e se alguém perguntar: onde vamos este fim-de-semana? O mais certo será dizer: vamos à Casa da Praia! Não sei porquê, mas este nome nunca entrou no nosso léxico. Dizemos sempre: vamos à Cabeça Alta!

Casa da Praia 1.jpg

A Casa da Praia em construção

Casa da Praia 2.jpg

A Casa da Praia terminada. E o Cortina do Sr Gervásio. Faltam ainda os gradeamentos de trás. Através do portão vê-se, à esquerda, o muro para suster as terras que eu estava construindo e em frente as escadas para subir para a frente da casa, também ainda em construção.

Casa da Praia 3.jpg

 A Casa da Paria hoje.

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publicado às 11:14

Partida para Moçambique

por António Tavares, em 06.05.17

Partida para Moçambique

Durante a especialidade em Mafra, preparei-me para fazer a admissão ao ISE. Em Julho de 1971 pedi licença para ir fazer os exames a Lisboa. Fui e fui admitido. Mas já era tarde de mais. Já não podia pedir adiamento de incorporação.

Pedi ao Mário que me arranjasse os livros pelos quais a Ana estudava (andava no ISE) para eu ir lendo em Moçambique. Arranjou-me o Pereira de Moura (era a bíblia) mais alguns livros e algumas sebentas. Foram todos roubados em Mueda.

Havia em Torres Novas um alferes que devia pesar perto de 150 quilos. Pensa-se que foi o seu peso que evitou que fosse mobilizado para o ultramar. Tinha um Fiat 600 e um gosto especial por petiscos. Quem ia com ele tinha que ocupar os bancos de trás do Fiat. A frente era só para ele.

Íamos com frequência beber uns copos a uma taberna nas Terras Negras. Com a sua bonomia era uma pessoa muito bem-disposta. Dizia que tinha por hábito fechar os olhos quando guiava a direito e que os abria sempre antes da próxima curva.

Certo dia, vínhamos das Terras Negras, abriu os olhos tarde de mais e só parámos dentro de um campo de couves. Os quatro conseguimos por o Fiat na estrada. O pior foi quando chegamos à cidade e quisemos ir meter gasolina. Saímos todos para nos limpar e quando fomos embora deixamos a bomba de gasolina cheia de terra. É que tinha chovido e, quer nós quer o Fiat, pingávamos lama por todo o lado. O homem da bomba de gasolina ainda lá deve estar a fazer barulho, neste momento…

Finda a instrução, em Março de 1972, deu-se início à preparação para embarcar para Moçambique. Todos em tronco nu, sentados num banco corrido, uma perna para cada lado, passava o enfermeiro com uma seringa enorme e dava uma espetadela em cada um. Era a chamada dose cavalar.

Era autorizado aos militares deixar cá, na metrópole, cerca de 60% do ordenado. Ia ganhar cerca de 10.000$00. Decidi deixar cá 6.500$00. Informei-me sobre que companhia de seguros fazia seguros de vida de militares que iam para o ultramar, que cobrissem o risco de morte. Só havia uma: a francesa La National Vie. Contratei um seguro, já não me lembro de que valor. O beneficiário, em caso da minha morte era o meu pai. Paguei a primeira anuidade e avisei a minha irmã Helena (era a mais velha) que tinha dado o nome dela para ficar a receber todos os meses os meus 6 contos e quinhentos e pedi-lhe para os depositar na minha conta no banco. E ela pagaria desse valor as restantes anuidades do meu seguro de vida.

Não sei como nem porquê o meu pai veio a saber que tinha dado o nome dela para ficar a receber o dinheiro. A helena disse-me que o pai não tinha ficado nada contente. Mais uma vez não me disse nada a mim. Mas para evitar confusões troquei o nome dela pelo do meu pai. Mas disse à Lena que lhe mandaria todos os anos o valor necessário para pagar a anuidade dos seguros. E mandei sempre.

Quando escrevia à mãe dizia-lhe:

- Ó mãe, olhe que o dinheiro que vocês aí recebem é do meu ordenado. Guardem-me algum para eu reiniciar a minha vida quando aí chegar.

A mãe respondia que sim. O certo é que quando cá cheguei nem um tostão tinham guardado. Quando regressei para o despachante, em pleno período PREC, entramos em autogestão. Recebi, passados uns meses uma autopromoção com retroactivos que me permitiram comprar, a pronto, um Fiat 128. Mas não tinha dinheiro para o seguro, já na altura obrigatório. Pedi à minha mãe que ao menos me ajudasse a pagar o seguro. Afinal tinham recebido 6 contos e quinhentos do meu ordenado durante 2 anos.

A mãe respondeu que o dinheiro tido ajudado este e aquele… (disse-me os nomes!), que não tinha o que lhe pedia, mas mandava o possível.

Sabes Lúcia… lembras-te de quando ias ter comigo à Marconi, ao pé da Feira Popular, a pedir que também tinha que contribuir para comprar uma televisão para os pais no Casalinho e eu dizia que não podia? Não te quis dizer, na altura, que já tinha ajudado a todos vocês o suficiente, com o meu ordenado, durante dois anos. Afinal eu fui, de todos, o que mais ajudou os pais e não só. Eu sei que o pai pensava que o dinheiro que recebia era um subsídio do estado por ter um filho na tropa. Mas não era. Era o meu ordenado. E eu disse-lhes, por carta, muitas vezes. E muito me custou, com a ajuda de pessoas que não me eram nada, conseguir ir para a tropa como oficial a ganhar mais de 10 contos por mês… em 1971…

Voltando a Torres Novas…

Comprei a revista Crónica Feminina. Publiquei um anúncio: “Alferes miliciano deseja corresponder-se com raparigas …. SPM XXXX”. Era usual os militares colocarem estes anúncios em revistas femininas, para terem amigas com quem se corresponder. Eu tinha pedido às minhas namoradas platónicas para se corresponderem comigo. Da Graça não consegui nada. A Nônô ainda me escreveu algumas vezes.

Devido às peripécias da minha chegada a Moçambique (Beira, Porto Amélia, Mueda, Hospital), só 2 ou 3 meses depois recebi as primeiras cartas. E a primeira entrega (ainda no hospital) foi um saco bem recheado de cartas. Algumas até do Brasil: Vitória, Piauí.

Não podia responder a todas. Fiz uma selecção: melhores palavras, melhores letras, melhores localizações, etc. Mesmo assim ainda respondi a algumas durante algum tempo. Depois foi a selecção natural. A cativação pelos diálogos escritos e a assiduidade. Ficou a Fernandinha (sempre lhe chamei assim), a mãe dos meus filhos e minha companheira à 42 anos.

Voltando novamente a Torres Novas…

Na véspera de embarcar para Moçambique fui ao Quartel do Entroncamento buscar um soldado que estava preso (nunca soube porquê) e que tinha sido castigado com a mobilização forçada. Partimos no dia seguinte em camiões para o aeroporto militar de Lisboa.

Fomos das primeiras companhias a embarcar nos 2 novos Boing 707 brancos da Força Aérea e não nos velhos Paquetes Vera Cruz e Funchal. Cada avião levava uma companhia inteira, mais de 300 homens.

Dos 4 Alferes que faziam parte da nossa companhia, um não compareceu ao embarque. Tinha dado baixa ao Hospital Militar Central de Lisboa. Nunca mais o vi.

Eram 10 horas da manhã. 12 horas depois estávamos no aeroporto de Luanda. Já era noite, saímos e senti, pela primeira vez, o bafo do calor de África. Umas horas depois embarcamos de novo com destino à Beira.

Depois de uns dias de descanso, de ter sido levado pela 2oposição” e pela “contra-espionagem” a fazer o tirocínio pelos bares da cidade, de ouvir e cantar o cancioneiro do Niassa várias vezes, aí vamos nós de avião (agora da DETA, companhia moçambicana) rumo a Porto Amélia.

A partir daqui iríamos embrenharmo-nos na guerra…

T Novas 3.jpg

 Eu, os meus Furriéis e os meus cabos.

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publicado às 15:42


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