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Primeiro ano da minha neta

por António Tavares, em 21.01.18

Primeiro ano da minha neta

Maria Clara. Fazes hoje um ano. Sempre quis escrever as minhas memórias e recordações. Mas foi o teu nascimento, há um ano atrás, que me motivou a começar. Temi que não tivesse tempo para tas contar pessoalmente. Tinha que as deixar escritas. Hoje, passado um ano, dou por terminada esta aventura. Espero ainda ter tempo para brincarmos os dois. E contar-te mais histórias de que me for lembrando. Como aquela que agora me veio à memória.

Estávamos em Nampula e todas as sextas-feiras era dia de limpeza na oficina mecânica de que eu era o responsável. Os carros que estavam a reparar vinham para a rua. O chão era lavado. Procedia-se à limpeza geral.

A um canto da oficina existia a ferramentaria. Os mecânicos levantavam no início do dia as ferramentas necessárias e tinham que as entregar no final do dia. Naquela sexta-feira de limpeza o ferramenteiro procedia, em tronco nu, à lavagem, com gasolina, de todas as ferramentas. Sem que ninguém se apercebesse os vapores da gasolina foram-se espalhando pelo chão da oficina e chegaram a um maçarico que um mecânico operava num canto bem longe dali, para uma reparação urgente.

Deu-se a explosão. O ferramenteiro dizia depois que se viu todo envolto em chamas. Conseguiu abrir a porta. Tirou os calções que ainda ardiam. Nem um pelo se via no corpo dele. Veio a emergência. Foi evacuado para o hospital que até ficava perto. Queimaduras em todo o corpo. Evacuado para a capital (Lourenço Marques). Evacuado depois para Lisboa. Soubemos algum tempo mais que não resistira. E era de Proença-A-Nova, ali para os lados de Cardigos.

Meus filhos e minha neta. Era isto que vos queria deixar escrito. Façam destas palavras o uso que bem entenderem.

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publicado às 17:57

O galo do carnaval e a matança do porco

por António Tavares, em 29.04.17

O galo do carnaval e a matança do porco

Na escola de Cardigos era usual os alunos da 4ª classe oferecerem, pelo Carnaval, um galo vivo à professora em sinal de agradecimento. Na minha quarta classe coube-me a mim ser o organizador.

O objectivo era percorrer as aldeias, escolher o galo mais vistoso e mais bonito e depois convencer a sua dona a vendê-lo. O que nem sempre era fácil. Descobrimos um lindo na Roda. A senhora compreendeu a nossa situação e lá fez o preço que entendeu.

Competia-me a mim ir recolhendo de cada um o dinheiro que cada um conseguia até ter o valor total.

No dia combinado fomos todos nós buscar o galo. Preso pelas patas e pelas asas, metido dentro de um açafate de verga, todo engalanado, lá o fomos entregar à professora.

Também era na quarta classe que a professora arranjava normalmente um passeio, em género de viagem de finalistas. Nem todos podiam pagar e não iam. A professora insistiu com o meu pai: que eu era bom aluno, que ia continuar a estudar. E lá fui.

De carreira, um dia inteiro até bem de noite. Fátima, Batalha, Alcobaça, Nazaré. Foi a minha primeira vez a ver o mar. Na praia, com um copo na mão, tentava a todo o custo enchê-lo de água do mar. Corria para as ondas mas logo que elas se aproximavam eu recuava com medo. Quando ia enterrar o copo na água só apanhava areia. Até que a professora disse:

- Dá cá.

E encheu-me o copo de água. Tinha aprendido que era salgada. Provei e era mesmo.

As carreiras que serviam Cardigos eram as do Claras com sede em Torres Novas. As que chegavam à noite dormiam em Cardigos e partiam de lá às 7 horas da manhã. Outras passavam por ali e iam dormir às Corgas (perto de Proença-a-Nova, porque o motorista era de lá). Nas manhãs húmidas e frias de inverno a carreira por vezes não pegava. O motorista já tinha o cuidado de a deixar numa descida para ele a deixar embalar e pegar em andamento.

Uma vez, ia eu para o seminário de Fátima e o motorista não conseguiu, mesmo descendo toda encosta até para lá do Azinhal (cerca de 4 quilómetros) que ela pegasse. Ali começava a subida. Então mandou toda a gente sair. Aquilo podia explodir. Abriu a capot do motor, abriu o carburador, pôs lá para dentro uma substância qualquer e aquilo pegou mesmo.

A matança do porco no Casalinho era um dia de festa. Era marcado o dia com antecedência para que nesse dia toda a gente pudesse estar disponível. Nós matávamos 2 porcos normalmente.

Uns dias antes começavam os preparativos para que cada família pudesse ter tudo disponível, carquejas secas para o chamuscar, facas de vários tipos, alguidares, tripas secas, etc.

Começava-se cedo no cimo da aldeia. Deitado numa mesa própria o porco era morto com uma facada directa ao coração. Só fazia isso quem sabia. O sangue era aparado para um alguidar.

Punha-se o porco no chão e aquela família ficava a chamuscá-lo. Com uma faca afiada fazia-se-lhe depois a barba bem feita para não ficarem pelos.

Enquanto isso os homens seguiam com a mesa para a família seguinte e assim até ao fundo da aldeia.

Morto o último voltava-se a levar a mesa para o cimo da aldeia. Voltava o porco para cima da mesa. Patas para o ar. Era aberto de alto abaixo. Esventrado. As tripas para um alguidar, as miudezas para outro. Depois de limpo era carregado pelos homens para a “loja”. Nós chamávamos loja à espécie de arrecadação onde se guardava um pouco de tudo. Pendurado pelas patas traseiras, ficava a arrefecer 1 ou 2 dias.

A guerra entre nós era para saber quem comia a primeira febra espetada num pau e grelhada nas brasas de chamuscar o porco.

Antes do almoço as mulheres carregavam as tripas para serem lavadas com muito limão no ribeiro do vergancinho. Viradas e reviradas, esfregadas e bem lavadas. Era para os enchidos. E mesmo assim não chegavam. Tínhamos que comprar tripas secas.

À noite começava-se a cortar as primeiras carnes para os enchidos.

No dia seguinte ou 2 dias depois o porco era desmanchado. Todas as peças separadas. As aparas das carnes iam para os enchidos, separadas consoante os tipos de enchido: morcelas, farinheiras, cacholeiras, chouriços, paios, etc. O resto da carne era salgada na salgadeira para comer todo o ano. As pás das patas da frente eram curtidas e salgadas como se fossem presuntos. Para nós era mesmo presento.

As patas de trás ia o meu pai na carroça trocá-las por mantas de toucinho ao Vale da Urra, já perto de Vila de Rei. Uns 6 ou 7 quilómetros. Cada presunto valia 2 mantas de toucinho. Ficávamos com muito toucinho, gordura que alimentava todas as refeições durante o ano. Mais uma vez eu tinha que ir com ele. Fui várias vezes com ele ao Vale da Urra na carroça.

Ainda hoje Mação é o concelho autodenominado capital do presunto. É neste concelho que é produzida a maioria do presunto que se consome em Portugal. Aminha mãe costumava fazer um conjunto de chouriços pequenos, para dar um a cada um de nós. Era uma ansiedade a espera para que eles ficassem curados.

Depois no início de Janeiro, aos domingos, vinha um senhor a Cardigos com uma camioneta cheia de porcos pequenos para vender. Lá vínhamos nós depois com eles presos com uma corda estrada fora, no domingo à noite.

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publicado às 14:47


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